Segunda-feira, 13 de Março de 2006

A Casa da Antonieta

Tarde de Agosto de dois mil e cinco. Dezassete horas e trinta minutos! Antonieta acabou de chegar à casa. Vive com o marido e o filho mais novo, numa pequena casa inacabada, que começara a construir há quinze anos atrás. Com o cimento das primeiras presidenciais fez os primeiros alicerces, as chapas de zinco das legislativas seguintes, preencheram parcialmente o telhado, e, as tábuas e pregos das últimas presidenciais contribuíram para o resto. A casa parou no tempo desde então. Antes de chegar à casa, Antonieta conversara com algumas pessoas na rua, em trabalho de culto religioso, fizera uma visita relâmpago ao cantinho da mãe que, vive sozinha, e padece de uma doença que lhe rouba todos os dias, pedaços de carne. Os médicos não conseguem descortinar as causas da referida doença, por insuficiências de meios de diagnóstico complementar. Aproveitou também a ocasião, para passar em casa da irmã Juvelina, com o objectivo de apanhar o filho mais novo que, repete pela terceira vez a quarta classe. Divertira com as amigas num emprego do Estado, num pagode contagiante, promovido pelo chefe da repartição em causa. De facto, fora neste último que passara os melhores momentos do dia, entre parcos afazeres profissionais e loucura de um chefe de repartição, promovido por razões que só o tempo há-de descortinar. São 3.30 horas da manhã seguinte. Antonieta acorda com o seu despertador diário: uma rajada de tiros, provavelmente de metralhadora, desferido por um vizinho, com objectivo de afugentar amigos do alheio que, têm provocado danos nas redondezas. Ontem foi a cabra do senhor Vitó, anteontem a bateria da carrinha do Januário e, na semana passada, levaram toda a mobília da senhora Zita. Todos desistiram de apresentar queixas, num contexto de impunidade generalizada e, os ladrões sabem disso. Por isso, mesmo contrariada, Antonieta agradece ao senhor Camblé, autor dos disparos, pela iniciativa em causa. Já são 4.17 horas! Antonieta acabou de fazer a oração matinal diária e, refugia-se na leitura de excertos da bíblia, entre a indiscrição dos ratos que fustigam os cantos da casa e o zelo exagerado de alguns automobilistas madrugadores, que, se cumprimentam, entre buzinadelas anunciadoras de uma aurora tranquila. Os galos também participam na festa, como que, querendo humanizar os quintais, despidos de esperança. Num gesto de quase continuidade religiosa, Antonieta prepara o almoço para o marido, desempregado há quatro anos e meio, e, entre pausas culinárias, varre o quintal, depois de ter caminhado quilómetro e meio, entre viagens sucessivas, com o objectivo de encher todos os vasilhames disponíveis em casa, com água aparentemente potável, para as diversas necessidades diárias. Nos minutos seguintes, prepara a merenda para o filho, que, entre a Escola no período da manhã, a Feira de Ponto onde vende plásticos e a casa da tia onde espera pela mãe até bastante tarde, não tem tempo de voltar à casa. Búzios com pedaços magros de fruta-pão constituem a merenda, que, se repete pela quarta vez na mesma semana. Depois, entre a escolha de uma peça de roupa para levar para o trabalho, facilitada pela parca diversidade das mesmas, e, a ousadia de desconfiar do marido relativamente ao desaparecimento de quarenta mil dobras do interior de uma jarra, ainda tem tempo, para ir espreitando para a estrada, controlando a chegada do carro amarelo que, há-de transportá-la rumo ao emprego. Antonieta precisa irremediavelmente destes quarenta mil dobras, para, pagar o táxi, fazer algumas compras no mercado local, e, comprar medicamentos na Feira do Ponto para a mãe. São 7.38 horas! Antonieta decidiu confrontar directamente o marido com a sua desconfiança, sendo este um alcoólico inveterado, que, se encontra fundeado no colchão de palha lá da casa. «Fefé acorda!! Fefé! Você tirou dinheiro dentro de jarra??» Perante insistentes interpelações que acabaram por atrapalhar o sono e ronco do Fefé, este acorda e esmurra reiteradamente a esposa, que, fica com um dos olhos muito maltratado e a boca a sangrar. O filho assiste serenamente ao sucedido, denunciando a invariabilidade cénica que já é parte integrante da vida daquela família. Sem dinheiro na carteira e com menos um dente na boca, Antonieta e o filho começam a calcorrear a estrada de Mesquita, onde vivem, rumo à cidade. Chega irremediavelmente atrasada ao trabalho, cinquenta minutos, depois de ter deixado o filho na Escola. Não perde tempo nem energias com atemorizações, expedientes explicativos, ou desculpas, para o referido atraso, porque, sabe que o Director dos Serviços em causa, chegará também atrasado. Não era preciso ser bruxa! Eram 10.26 horas, quando o inefável Director, do alto da sua autoridade, suportada por um cartão de militante partidário e um moderníssimo jeep reluzente, estacionou o carro em causa, num parque improvisado. Outubro foi o mês terrível para Antonieta: o filho mais velho que cursara engenharia aeronáutica na ex-URSS e era guarda-nocturno num empreendimento turístico, suicidou-se, após um longo período de ensimesmamento, decorrente de uma esquizofrenia nunca diagnosticada nem tratada. O estado de saúde da mãe, também piorou de forma quase irreversível. O tempo parou ou retrocedeu para Antonieta, como a casa que começara a construir há quinze anos atrás. O ano de dois mil e seis, começa de forma menos brilhante ainda para Antonieta, depois de uma pequena satisfação inicial, com a notícia não oficial, de que, este ano seria o ano de muitas eleições no país. Seria uma boa oportunidade para acertar o passo com o tempo e acabar a referida casa. Em finais de Janeiro, Antonieta perde o filho, vítima de cólera, e, duas semanas depois, perde a mãe por causa de complicações renais inultrapassáveis. O marido, vive miseravelmente, vegetando entre tabernas e a ociosidade militante, com uma saúde corroída pelos estragos preliminares provocados por uma cirrose. Além disso, corre o risco de ir para prisão se, entretanto, não arranjar dez milhões de dobras, pedidos por um Juiz, como contrapartida, para impedir ou minimizar uma sentença desfavorável, decorrente de um caso, em que este participara activamente, culminando com a morte de um indivíduo. Antonieta ficou só! O tempo, as eleições e a casa, já não têm importância para ela. Este retrato, poderia ser um sonho. Bom ou mau, não interessa, porque, confunde-se com a nossa realidade. Senhor Presidente da República, senhores ministros e líderes partidários em geral: perceber isto faz parte da acção política! Transformar a democracia e a política de uma forma geral, num assistencialismo eleitoral cíclico e incompatível com as necessidades básicas quotidianas das pessoas, é próprio de um oportunismo desprezável. Cada processo eleitoral no nosso país, é excessivamente vulnerável ao assistencialismo desenfreado e à compra de votos, contribuindo assim, para o desequilíbrio na disputa eleitoral, consubstanciando a falta de autenticidade do poder na nossa terra. O país novo, ficou velho cansado de esperar, definitivamente inacabado como a casa de Antonieta. É preciso um novo rumo e impulso reformador para mudar as coisas.

publicado por adelino às 21:52
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