Quinta-feira, 28 de Julho de 2005

Cidadãos, Súbditos e a Independência


Reflexões para Férias





Parece que está na moda no nosso país, apoucar os críticos, como coisa que estes pertencessem a uma espécie exótica, ou, denunciassem com a sua atitude afirmativa e combativa, desejos escondidos de vir a fazer parte da “mobília” institucional da Polis. Os papéis e funções parecem estar completamente invertidos na nossa sociedade: alguns são cortejados, aclamados e promovidos, pela fidelidade demonstrada na promoção e sobretudo aceitação da inércia, como característica ideal da vivência na comunidade; outros, são hostilizados ou tratados com desdém, porque ousam falar, criticar, opinar, e no fundo, relacionar com os outros. A institucionalização desta inércia de súbditos no país, regada de forma empenhada nas instituições educativas (formais ou informais) e materialmente reforçadas nos momentos eleitorais, tem contribuído para gerar autênticos rebanhos, cujo lema é a servidão, com prejuízos incomensuráveis na consolidação do nosso processo democrático e consequentemente no desenvolvimento do país. Para o poder instituído, é mais fácil mastigar ou sacrificar carneiros, do que adestrar cavalos ávidos de liberdade, por isso, a receita é religiosamente guardada, alimentada e multiplicada. Péricles no seu famoso discurso aos Atenienses, já dizia que, “o cidadão que se mostra estranho ou indiferente à política” era considerado “ um inútil à sociedade e à República”. Eles dizem e conseguem mostrar o contrário: o cidadão que se mostra estranho ou indiferente à política, é considerado útil à sociedade e à nossa República. Temos por isso, um país que fraqueja ou soçobra perante múltiplas dificuldades, e a culpa, dizem alguns, é da própria independência. Estes esquecem-se no entanto que, as nações e os fenómenos a ela associados, constituem um fenómeno dual edificado a partir do topo, mas que, não pode ser compreendido se não for também analisado a partir da base, ou seja, em termos das necessidades momentâneas, desejos e interesses do povo, não sendo estes, necessariamente nacionais nem nacionalistas. Parece-me mais óbvio e aceitável culpabilizar alguns súbditos letrados pelo fracasso dos nossos interesses comuns, do que, andar a procurar sob recalcamentos doentios, associações entre o nosso fracasso socioeconómico e cultural momentâneo e a independência nacional. É verdade que nem tudo foi feito com rigor, prudência, inteligência e sobretudo responsabilidade, durante o percurso da formação do país, mas, a culpa é nossa. Como diria Ernest Renan, “enganar-se na história faz parte de ser de uma nação.” As nossas dificuldades socioeconómicas momentâneas, têm pouco ou nada a ver com a independência do país e tudo a ver com o Homem. Todos somos culpados: uns menos, outros mais. Com o nosso silêncio ou cepticismo inconsequente, fomos passivamente fazendo a política do poder instituído. Há trinta anos atrás, adormecemos inadvertidamente num manto vulcânico ainda quente e esperançoso, e, hoje acordámos, todos bobos, (como um idoso retratou e bem na televisão) assustados ou súbditos. O apelo às emoções identitárias, como forma de encontrar soluções para a resolução dos nossos problemas comuns, parece pouco racional e inteligente. Alguns chegam mesmo a sugerir uma refundação da nacionalidade. Acham eles que, um novo Estado é condição necessária para que a nação passe a ser verdadeira. Ironicamente, acabam por entrar em contradição com aquilo que criticam em todo o processo de construção do país desde a independência nacional, como coisa que, fosse possível por decreto, ir eliminando sucessivamente, a síntese de contribuições distintas que suportam a nossa alma colectiva. Anteriormente o problema era da colonização, agora, a mãe de todas as culpas é a independência. Daqui por trinta anos, será porventura a própria democracia, a responsável pelo nosso atraso socioeconómico. De forma soberbamente fácil, continuámos a arranjar explicações para os erros do presente culpabilizando o passado. Vivemos um tempo pouco propício à reflexão fecunda e, assiste-se todos os dias à exibição e passeio arrogante nos púlpitos improvisados, do fácil e acessório em detrimento do essencial. Nesta arena, enquanto os súbditos iletrados são requisitados para animar a lide de touros selectivamente escolhidos, alguns súbditos letrados estão somente interessados em garantir apenas a sua tranquilidade privada ou a preservação cumulativa das suas propriedades. A conquista do direito de sufrágio, é apenas um instrumento público de decisão, fruto de controvérsias racionais entre os cidadãos. Momentaneamente precisamos de cidadãos e não de súbditos. O exercício ou estatuto de cidadania, implica necessária e primordialmente, o reconhecimento do outro como igual, e não súbdito ou monarca. Ora, a mercantilização sucessiva e teimosa do sufrágio eleitoral no país, faz exactamente o contrário, ou seja, reconhece o outro como inferior, num contexto declarado e assumido de domínio e de ausência de liberdade. Tenho consciência que existem constrangimentos clássicos à implementação e aprofundamento da cidadania activa na nossa terra, designadamente a alta taxa de analfabetismo ainda prevalecente e a precariedade das condições materiais de existência da generalidade das nossas populações. Mas, isto justifica a cedência ao caminho mais fácil, cómodo, e egoísta, embora espinhoso? A privação actual do direito de sufrágio, em condições de liberdade (no sentido lato do termo) terá entre muitas consequências no futuro, a de aumentar ainda mais a indiferença política, manifestando-se de forma preocupante no aumento da abstenção nos próximos actos eleitorais. O que é que podemos fazer para minimizar o fortalecimento desta tendência, que, relega cada vez mais os cidadãos para a condição de súbditos?
Em primeiro lugar, e, ao contrário do apelo às emoções identitárias exacerbadas, questionando a própria independência do país, proposto demagogicamente por alguns sectores insignificantes da nossa sociedade, acho que, devíamos criar e disseminar localmente, instrumentos de intervenção com carácter pedagógico e cívico, que, contribuíssem para as pessoas reunirem, debaterem e argumentarem sobre questões de interesse comum. Neste sentido, acho louvável, oportuna, desejável e pertinente, a acção dos promotores da “Plataforma, Participação e Cidadania”.
Em segundo lugar, acho que é o momento ideal para se realizar um grande debate nacional sobre a finalidade do sistema de ensino que estamos ou que queremos construir, com o objectivo de dotar a nossa escola pública de meios e conteúdos, que, permitam a elaboração e implementação de um projecto de educação para a cidadania. Só assim, estaremos a contribuir para a criação de verdadeiros cidadãos, que, possam ter e desenvolver a capacidade de controlar e fiscalizar os nossos governantes, de decidir e argumentar em função das competências adquiridas anteriormente, e, escolherem com conhecimento de causa, as diversas alternativas políticas consideradas mais adequadas ao nosso interesse comum, sem constrangimentos de mercantilização do sufrágio eleitoral.
Em terceiro lugar, acho inadiável uma reforma de práticas, métodos, organização e programas dos diversos partidos políticos, que, permita o reforço da dimensão horizontal, passando a ser a dinâmica partidária a responsável pela produção das soluções políticas na nossa terra, ficando a Presidência da República com funções formais de representação.
Por último, parece-me determinante a valorização do papel da comunicação social no país, nesta etapa do nosso desenvolvimento. A nossa fragilidade socioeconómica, é hoje, a maior fonte da ruptura do nosso contrato democrático. Como podemos pedir ou exigir aos nossos profissionais da comunicação social, que, trabalhem em função do interesse colectivo, quando não lhes são asseguradas condições mínimas de independência, sobretudo em casos que envolvem corrupção no país?
Alguns preferem encontrar razões para o nosso atraso socioeconómico, na independência. É provavelmente, uma forma fácil e engenhosa de auto-consolo, resultante de cicatrizes que ainda doem, só que, desprovida de um substrato analítico que possa convencer o pior dos cépticos. Enquanto no país continuarmos a fabricar súbditos em série, em detrimento de cidadãos, este consolo extemporâneo de alguns permanecerá vivo e religiosamente guardado, à espera da pior das gravanas para a emancipação da dor.







publicado por adelino às 11:23
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Anónimo a 29 de Agosto de 2005 às 05:36
Hello!czar
(http://starsi.blogdrive.com)
(mailto:cabrak@hotmail.com)

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. A Morte de Chico Paleio

. Bons e Maus Chefes de Coz...

. A Ilusão do Poder de Sãm ...

. O Festim Carnicento dos “...

. O Presunto dos Bufados

. Branco mas Pouco Transpar...

. O Curandeiro, o Médico e ...

. Um Príncipe Quase-Perfeit...

. Mexer no Sistema para Mud...

. Os Aprendizes de Feiticei...

.arquivos

. Janeiro 2011

. Setembro 2010

. Fevereiro 2010

. Agosto 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Janeiro 2008

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Julho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Janeiro 2005

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds