Sábado, 24 de Setembro de 2005

Falsos Histéricos e o Verdadeiro Problema

Hipócrates considerou a histeria uma doença psíquica, tipicamente feminina. Segundo ele, se o útero for privado da sua função natural de fazer filhos, desloca-se perigosamente no corpo da mulher, impedindo-a de respirar, criando-lhe assim as piores angústias subindo-lhe até a cabeça. A solução consiste pois, em fazê-lo reencontrar a sua função natural, no exercício da sexualidade.
No Príncipe existe uma lenda que, considera a histeria uma doença tipicamente masculina, com prevalência em certas pessoas portadoras de outras perturbações mentais: a privação do exercício sexual, de forma acentuada nestas pessoas, provoca a acumulação de espermatozóides, que deslocam perigosamente para a cabeça, provocando perturbações psíquicas próximas de um quadro de histeria.
No quadro científico medieval, Santo Agostinho identificou a histeria como o lugar do combate entre as forças do bem e as do mal, sendo que, as mulheres que apresentavam esses sintomas, eram consideradas feiticeiras e condenadas à fogueira.
Hoje em dia, graças aos contributos de inúmeros cientistas, foram criadas as bases modernas para uma compreensão e abordagem psiquiátrica da histeria. Soube-se então, que, a personalidade do histérico organiza-se em torno de três eixos fundamentais: a encenação permanente do íntimo e do sexual; o jogo contínuo entre verdade e mentira e a plasticidade da personagem. Com o aparecimento do petróleo, subitamente, passámos a encontrar e conviver no país com os “falsos histéricos”, cuja teatralidade discursiva e argumentativa, são postas ao serviço de comportamentos de sedução e de erotismo incompreensíveis: não sendo do Príncipe nem descendendo do Príncipe, gostavam de ter uma ligação emocional com o Príncipe, para melhor defenderem o Príncipe. A generosidade com tiques dramáticos, tornam estas personagens acolhedoras, sedutoras e abertas, disponíveis para abraçar grandes causas públicas. Por isso, não querem ver o Príncipe entregue ao “desvario de políticos locais de segunda categoria” porque estes são piores do que os políticos nacionais que pertencem a primeira categoria. Mitomaníacos por natureza, passam a vida a mentir a si mesmos, da mesma forma que transformam a realidade para os outros. Por isso, eles não querem a autonomia “para a sua ilha” (o Príncipe) porque não querem vê-la subalternizada em relação à S.Tomé. Mudando sucessivamente de opinião em função dos outros, dos seus interesses particulares e/ou da conjuntura política, (favorável ou desfavorável) e, sugestionáveis quanto baste, os "falsos histéricos" estão sempre prontos e disponíveis a entusiasmarem-se ou pelo contrário a compadecerem-se. Esta inconsistência do carácter dos “falsos histéricos”, está relacionada com o mecanismo de defesa fundamental do problema em causa: a identificação. Agora eles são do Príncipe, identificam-se com o Príncipe, estão dispostos a defender a causa do Príncipe e gostariam de ser “principenses-de-gema”; da mesma forma que já foram defensores acérrimos, encorajadores, estrategas e admiradores de primeira linha, do Senhor Presidente da República Fradique de Menezes, mudando posteriormente de opinião. É o tal problema da identificação. No entanto, só constatam “emoções mal geridas, traumas pós-coloniais mal resolvidos, recalcamentos e complexos de inferioridade” nos outros. Da mesma forma que mudaram rapidamente de opinião relativamente ao Senhor Presidente da República Fradique de Menezes, comportando-se como ratos num barco a submergir, depois de considerarem-no um génio entre ignorantes, hei-de vê-los também, num contexto temporal não muito distante, a mudar de opinião relativamente ao actual regime político-administrativo da região do Príncipe.
O regime político-administrativo próprio da região do Príncipe, citado como “autonomia do Príncipe” é apenas uma operação lógico-jurídica decorrente dos condicionalismos de natureza política, geográfica, económica, social, e cultural do país, pretendendo-se identificar, caracterizar e implementar com tal, uma simples reforma descentralizadora para o mesmo. Não há quaisquer reminiscências nostálgicas autodeterminativas nesta concepção de descentralização para o país. Se Freud fosse vivo, reafirmava: só os histéricos é que sofrem de reminiscências.
A ideia de dissolução da região autónoma do Príncipe e outras autarquias locais, com objectivo posterior de criação de uma comissão parlamentar para discutir a divisão administrativa que melhor pode servir o país, para além de ingénua, como bem sustentada pelo autor da façanha, parece-me inconsistente, patética e desprovida de qualquer interesse intelectual, sobretudo porque não comporta qualquer conteúdo ou substância reformadora, tendo em conta os constrangimentos políticos, económicos e sociais momentâneos do país. Se o problema é de facto não conferir qualquer tipo de autonomia ao Príncipe, mesmo atendendo a sua especificidade, muito menos faria qualquer sentido, fazê-lo em relação às outras regiões de S.Tomé. Então, para quê a sugestão ou proposta de criação de três distritos em S.Tomé, se o objectivo central desta concepção é a não transferência de quaisquer competências do Governo central para qualquer região do país, a bem da unidade e coesão nacionais? Parece-me um monstruoso disparate pretender-se criar municípios, e ao mesmo tempo, impedir qualquer transferência do governo central para as estruturas em causa. E como é possível pretender-se criar municípios e privá-los de conteúdo político? Parece anedótico para não dizer outra coisa. Como seria então, a estrutura organizacional dos diferentes subsistemas destes novos municípios (o político, o técnico-operativo e o administrativo) compatíveis com o aprofundamento desejável da democracia na nossa terra e minimizador dos constrangimentos existentes? Como é que se pode passar a vida a criticar constantemente, os níveis paupérrimos de participação ou manifestação de cidadania no país, e, no entanto, ser-se um defensor da subordinação do local, pela dependência imperiosa de hierarquias territoriais superiores, típicas do Bonapartismo centralista?
Segundo Georges Gontcharoff (1985) se interligarmos a questão da cidadania com a descentralização, esta poderá ser entendida, como algo que potencializa a reaproximação do poder ao cidadão; ou seja, a descentralização é uma via, por intermédio da qual, o cidadão tem possibilidades de intervir e participar mais activamente nos debates locais, correlacionados com problemas que directa e objectivamente lhe dizem respeito, em conjunto com os responsáveis, decisores políticos e financiadores, assistindo-se desta forma a um aumento do controlo democrático sobre as decisões. Também João Caupers (1994) entende que, só existe descentralização – territorial, administração autónoma – quando os interesses específicos de um determinado território infranacional sejam prosseguidos por entes públicos de base territorial, entes esses que, possuindo órgãos e titulares dos mesmos eleitos livremente pelos residentes no território local, prosseguem a gestão – de acordo com as atribuições próprias – das problemáticas locais, estando somente sujeitos a tutela administrativa no que se concerne à legalidade dos actos por eles praticados. Sendo assim, como é que se pode falar em descentralização, sugerindo a mera criação de delegações da administração central no Príncipe? Ai é que eu não vejo nenhuma racionalidade política, económica, social e cultural, de acordo com os novos paradigmas de desenvolvimento e novas formas de mobilização popular.
Eu não preciso de querer ser Angolar ou descendente de Angolares, para achar ou defender com toda a convicção e sem titubiezas, que, a criação de uma região ou município naquela zona, dotada de competências, meios financeiros e humanos próprios, bem como noutras zonas do país, de acordo com a nossa especificidade política, geográfica, cultural, económica e social, pode constituir um entrave à burocracia que caracteriza o nosso aparelho de Estado e, consequentemente, minimizar o divórcio, cada vez mais acentuado que se tem verificado entre o Estado e o quotidiano dos cidadãos, fortalecendo deste modo a cidadania, a luta contra a subalternidade, defendendo os direitos da maioria silenciosa, da democracia e da qualidade de vida da generalidade dos Sãotomenses. Abstenho-me de fazer qualquer consideração, relativamente à percentagem financeira explícita na Lei-quadro das Receitas Petrolíferas destinada ao Príncipe, na medida que, percentagem semelhante será afecta aos municípios de S.Tomé, de acordo com a mesma Lei-quadro. Além disso, existirão condicionalismos de natureza ambiental e outros, decorrentes da exploração petrolífera, cujo impacto directo será circunscrito à zona de tais jazidas ou de exploração das mesmas. Isto valeria sempre, ou, teria significado, amplitude ou consequências, quer as jazidas em causa se encontrassem em Angolares, em Neves, no Príncipe ou na cidade capital. Só por ignorância, má fé, falta de rigor ou irresponsabilidade grosseira, este problema pode ser colocado desta forma. Da mesma forma pode-se dizer, que, as populações do Príncipe, Angolares, Neves e de outras zonas do país, cansadas de sofrer, de suportar com angústia e tristeza, níveis extremos de pobreza e de conviver apaticamente com atropelos sistemáticos aos alicerces do nosso regime democrático, não precisam de solidariedades virtuais. Precisam sim, de comportamentos, sinais e atitudes pedagógicas, sobretudo daqueles que tiveram oportunidade e meios para estudar e adquirir competências adequadas, que, possam ajudar a promover localmente, a interiorização, prática e aprofundamento da democracia. As suas preocupações e os meios pacíficos e democráticos utilizados, para a chamada de atenção para o problema da não realização de eleições autárquicas e regionais no país, há mais de dez anos, parecem-me justos, equilibrados e inteligente. Há mais de cinco anos (muito antes da elaboração e promulgação da Lei-quadro das Receitas de Petróleo) que a população do Príncipe reclama e luta pela realização das eleições Autárquicas e Regionais no país, porque os actuais governantes Regionais estão no poder há dez anos e cinco meses. Não é legítima esta luta? Onde é que os “falsos histéricos” têm estado? Isto é que é o verdadeiro problema, e, não tem nada a ver com a histeria relacionada com o petróleo dos "falsos histéricos". Além disso, como é que estes podem ter o descaramento de congratularem-se com a realização de um golpe de Estado no país, pelo facto de ser uma óptima oportunidade de “…pegar búfalos pelos cornos enquanto é tempo, e em simultâneo, evitar o regresso dos democratas da treta…” (sic) e, ao mesmo tempo, condenarem a atitude pacífica e democrática de pessoas que se limitaram a manifestar e consequentemente, a chamar a atenção do mundo, para o problema da não realização das eleições Regionais e Autárquicas no país, há mais de dez anos. Quem são os verdadeiros democratas da treta neste caso? Haja paciência para tanta incoerência e ignorância! Nem encetando uma luta entre as forças do bem e do mal sugerida pelo Santo Agostinho, será suficiente para combater tanta histeria em torno do petróleo.



publicado por adelino às 13:36
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1 comentário:
De Anónimo a 27 de Setembro de 2005 às 12:12
Bem, isto chama-se qualidade de informação. Adorei ler, detive-me em cada ensinamento, em cada informação, bebi deliciosamente as palavras. Belíssimo post. Parabens. Voltarei, aliás...serei assídua. Continuações de tudo de bom.e aproveito para agradecer as tuas palavras no meu humilde blog.Elsita
(http://utilidades.blogs.sapo.pt/)
(mailto:elsita05@sapo.pt)

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