Sexta-feira, 30 de Setembro de 2005

E assim vai a África...


Esta crónica faz-se hoje de dois factos africanos, um positivo e outro negativo.
Começarei pelo positivo que diz respeito à indicação da angolana Eunice Inácio para a lista dos candidatos ao Prémio Nobel da Paz/2005. Trata-se de alguém que, para além de uma formação na área (pois estudou relações internacionais e, mais precisamente, resolução de conflitos na Universidade de Kwazulu Natal, na África do Sul), tem-se dedicado a pôr em prática a cultura da paz, trabalhando no Programa de Construção de Paz, da Development Workshop, com o apoio de uma organização não-governamental chamada CIDA, sigla que significa Canadian International Development Agency, de que é gestora de programas. É ainda promotora de uma organização que forma jovens para o trabalho comunitário, chamados Jovens Embaixadores da Construção da Paz e Cidadania.
Escolhida entre 1000 mulheres de 150 países, Eunice Inácio é alguém que afirma ter sentido a necessidade de se envolver no processo de construção da paz em Angola por já não suportar assistir a tanto sofrimento de pessoas afectadas pela guerra que assolou o país durante décadas. Trabalhando como mediadora em terreno difícil de grande sensibilidade, marcado por agentes religiosos, políticos e militares, que muitas vezes constituem uma mistura explosiva quando o assunto é a demarcação de terrenos de influência, Eunice Inácio demonstrou ter – dizem aqueles que com ela trabalham – uma grande capacidade de negociação, de moderação, de persistência e de espírito de liderança, incentivando jovens. Ela própria é responsável pelo treino de 600 promotores da paz que têm actuando em 14 províncias em programas de realojamento e reinserção social.
Ao ouvi-la há dias, durante a conferência de imprensa promovida pela Development Workshop para anunciar a candidadtura desta mulher a um dos mais gratificantes prémios para quem se dedica a cuidar dos outros, julgo que o seu espírito de despojamento pessoal ficou revelado quando disse estar admirada pelo facto de ter sido nomeada. No entanto, ela afirma que não é fácil (como poderia ser, depois de uma guerra fratricida tão violenta?), trabalhar para a paz num país em que os partidos não são abertos e a sociedade civil se coíbe de abordar assuntos incómodos que forcem o governo a mudanças.
Mesmo que não ganhe o Prémio Nobel da Paz, Eunice Inácio, depois da queniana Wangari Maathai no ano passado, terá demonstrado aos seus compatriotas que a vontade é o motor da mudança, enquanto Angola terá mostrado ao Mundo a sua capacidade de regeneração interna.
O assunto que se segue merece-me poucas palavras: apenas quero manifestar perplexidade face ao que ouvi há dias: o presidente de São Tomé e Príncipe, Fradique de Menezes, afirmou não compreender como é que um recente relatório do Banco Mundial assinala um aumento considerável dos índices de corrupção no país. Ora, como cidadã são-tomense, preocupada com a capacidade de comprensão dos dirigentes do meu país, gostava de entender o que é o que Sr. Presidente não entende (porque há cidadãos, eu incluída, que certamente se voluntariam para lhe explicar essa confusão que o baralha, se for preciso com números, desenhos e nomes): se não entende as palavras do relatório; se não entende como é que só agora uma instituição internacional chegou a esta conclusão (a que qualquer pessoa no país já havia chegado); se não entende como é que pessoas que até há pouco tempo não possuíam um único bem (incluindo pessoas da sua entourage) hoje se destacam como das mais portentosas do país (materialmente falando, claro!); se não entende como é que pessoas, que comprovadamente têm lesado o país nos acordos, continuam de pedra e cal em lugares-chave; se não entende como é que o petróleo ainda não começou a ser explorado e já há ricos no país (relativamente falando); se não entende como é que existe um fosso cada vez maior entre os habitantes daquelas ilhas ditas maravilhosas. Afinal, o que é o Sr. Presidente não entende?! Se não entende é porque não quer entender ou não está atento.
Seria risível se não fosse tão trágico!



Inocência Mata - RDP- África, 29 de Setembro de 2005





Sinais de Contradição




Eu acho que é mesmo uma tragicomédia. Senão reparem: o mesmo Presidente da República, em 9/07/2002, antes de partida para uma cimeira em Durban, afirmou que, relativamente à corrupção, podíamos considerá-la como “… uma doença enorme, eu tenho impressão que é igual ao SIDA, ou igual ao PALUDISMO, que nos rói economicamente e que nos mantém neste subdesenvolvimento…” (sic).
Esta contradição flagrante para o mesmo problema, parece-me assustadora, cómica e trágica. O mesmo actor que, comparava há três anos atrás, a corrupção ao SIDA ou ao PALUDISMO, relacionando-a com o nosso atraso crónico; é o mesmo, que, se surpreende com o relatório do Banco Mundial que constata um aumento dos níveis de corrupção no país. E assim o país não vai…


publicado por adelino às 19:48
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