Segunda-feira, 6 de Março de 2006

Carta de Resposta dos Santos

CARTA ABERTA AO POVO

Caríssimo Povo

Sei que sofreis como Eu e Tomé, apertados que estais, entre a vergonha e a miséria, enquanto os bonzos deliram com o vosso conformismo e paciência. Angústia é pouco para qualificar o nosso estado de espírito momentâneo e o Atlântico parece calmo e obediente ante a irreverência e desobediência das nossas lágrimas. Não esperávamos um bilhete-postal vosso nesta altura, porque, ocupado como estais com o mínimo para a vossa sobrevivência, tememos não terdes tempo para empreender capricho tão valioso. Que bom compartilhar este sofrimento, angústia e desespero convosco! Houve um tempo e moda, que, o papão marxista, sob protagonismo da mesma senhora que agora vende o seu peixe aos gritos, debitava ladainhas e profecias ao povo, e este, sonhava e acreditava cegamente. Não lembrais: do programa avulso das nacionalizações; da mobilização geral para o trabalho voluntário nas roças; das perseguições políticas e prisões arbitrárias por motivos ideológicos; do sonho colectivo “construamos com as nossas próprias mãos, uma pátria renovada”; das anunciadas invasões do país por mercenários estrangeiros… Tudo isto congelou na falsa abundância da gravana. Depois, noutro tempo e estação do ano, multiplicaram-se senhores e senhoras, bem como, profecias ou predições. O povo, confuso e adormecido começou por acreditar, para, rapidamente ignorar ou passar a detestar as criaturas em causa. Como predizer ou profetizar tão sabiamente e ninguém nos dar ouvidos? Teremos desagradado ao povo? Teremos perdido a confiança dos nossos Santos? Foram estas as interrogações que mais se ouviam na corte. Convencidos que o país implodisse, como Tróia caiu pelo facto de ninguém dar ouvidos às profecias que eram debitadas, os bonzos resolveram macaquear receitas oriundas de outras paragens: nós pagámos, eles votam, resolvemos a nossa vida e, se possível, a vida do país. A partir dai, sabeis perfeitamente o que aconteceu: tentativas frustradas de projectos messiânicos de poder como resposta à crise de formação da decisão política na nossa Terra; corrupção galopante em contraste com níveis alarmantes de pobreza; debilidade institucional e consequente desaparecimento do Estado, em contraposição ao fortalecimento de formas agressivas de conquista de poder como golpes de Estado e sublevações militar.

Meu Pobre Povo

A instabilidade governativa continuará a existir na nossa Terra, e consequentemente, a vossa incapacidade de resistir à atracção para o precipício tenderá a perdurar, enquanto o nosso sistema partidário não for auto-suficiente na sua produção de soluções de poder político. Não tenhais ilusões! Neste contexto concreto, em que se dá o confronto “democrático” entre partidos, a aceitação e interiorização da ideia de menorização da questão organizativa dos mesmos na nossa sociedade, e sua substituição por formas subtis e sofisticadas de mercantilização do sufrágio, implica que se aceite generalizadamente, uma forma dupla de fraude eleitoral e de concorrência desleal. Num primeiro plano, pode-se considerar, que, vence as eleições, o partido que tiver garantido apoios externos que lhe garantam sustentabilidade financeira para tal; enquanto os outros, estarão condenados a perder, independentemente das propostas que apresentem para o desenvolvimento do país. Num segundo plano, a assunção e institucionalização da ideia de secundarização e menorização da questão organizativa dos nossos partidos, implica que se admita, haver partidos políticos que concorrem aos actos eleitorais, sem terem criado as condições legítimas para executar as acções inerentes à delegação do poder na nossa Terra. Ora, isto parece-nos mais uma fraude, porque, ninguém nos garante que vós, eleitores, tenhais total conhecimento dessa deficiência. Pedimo-vos encarecidamente, não aceitais a ideia de que o Estado é um conjunto de organizações que podem ser apropriadas somente através de uma vitória eleitoral. Não será esta deriva irresponsável que, fez com que, a mesma elite política local, responsável pelo fabrico, planeamento e eleição do Senhor Presidente da República, Fradique de Menezes, seja a mesma que, agora o abomina e deseja mandá-lo para rua ? Das duas, uma: ou o homem é muito mau para o lugar que ocupa (coisa que Eu e Tomé já sabíamos) ou a dita elite se enganou. Deveremos continuar a acreditar numa elite partidária que se engana sucessivamente, induzindo o povo, voluntária ou involuntariamente, nesta corrente de enganos, obrigando-o a carregar continuadamente no tempo, este pesado fardo? Num contexto “democrático”, com a grandeza das dificuldades que o nosso país atravessa, devereis ser mais exigente, selectivo, determinado e perspicaz no reconhecimento da importância do Estado como instrumento do poder. Caso contrário, tereis mais corrupção, mais instabilidade política, mais pobreza, mais golpes de Estado e sublevações militar, mais vergonha e angústia; enquanto os bonzos hão-de rir desalmadamente da vossa inocência. Não dês razão ao provérbio chinês que diz: quando o dedo aponta a Lua, o tolo olha para o dedo. Muitos dos nossos políticos, infelizmente, não desistiram de continuar a olhar para o dedo, negligenciado o longo prazo. Por isso, viveis neste circo crónico que evocastes e a distância entre vós a as instituições democráticas do país, tenderá a aumentar com prejuízos para os mais pobres e marginalizados. Procurais ser mais exigentes convosco e depois para com os outros. Por isso, vos digo: neste contexto eleitoral concreto que se avizinha, se confrontados com ofertas de políticos, de natureza e origem inexplicável, recebeis sem hesitar. Posteriormente, peço-vos que analisais cuidadosamente: as linhas de força das propostas políticas dos diversos partidos e movimentos, para o desenvolvimento sustentável do país; o contexto temporal de materialização de tais propostas; a origem e os meios materiais e financeiros que hão-de suportar tais propostas; a equipa hierárquica de trabalho que dinamizará o programa em causa; o modelo de organização pretendido; como pretendem combater a corrupção no país; como pensam contribuir para o melhoramento ou valorização das formas organizativas dos diversos partidos políticos locais; que contributos válidos trarão para a credibilização das instituições e restauração da autoridade do Estado, etc. No fundo, esperámos que consigais decifrar, validar e legitimar, políticas e programas, que se preocupam com a nossa sociedade no seu conjunto, votando em consciência, independentemente de terdes recebido qualquer oferta. Não haverá tão cedo, uma outra oportunidade como esta, para mudar as coisas na nossa Terra. Prometemos interceder junto de Deus e da Nossa Senhora, no sentido de atenuar o vosso sofrimento e desilusão, mas, o verdadeiro milagre, estará nas vossas mãos e na vossa atitude. É com lágrimas que nos despedimos, ciente da hérculea tarefa que vos espera. Queiram aceitar os nossos cumprimentos. Tomé e António.

publicado por adelino às 22:04
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