Sábado, 31 de Maio de 2008

Manifesto Anti-Hugo

Uma pequena homenagem a um colega que rejeita bater a porta e pedir licença para reflectir. Por isso, não é uma coisa! Não gosta que os outros sejam uma coisa. Não suporta a domesticação, por isso, também, gosta dos animais, das plantas, dos fungos, e até, de fornos solares…

Um abraço para ti…

 

Manifesto, Anti-Hugo, dos filhos da Girafa, do Sapo e da Jibóia

 

«…Vimos-te chegar, calmamente, à selva, com ares de intelectual moderno, simpático, afável e disponível. Nem Darwin nem Lineu ousaram transgredir as regras avulsas impostas pelas nossas queridas mães e tu, qual Carlos Magno, pretendes transformar a selva num lugar de conversão dos mouros? Somos animais e não criaturas humanas! Por favor, deixa-nos em paz! Não mexas nas folhas, não mexas no nosso sagrado húmus, não mexas nas nossas lianas. Estas, hão-de crescer, crescer para o céu, transformando, mais tarde, em autênticas parasitas modernas. É este o nosso destino também…»

Era este um manifesto secreto, dos filhos da girafa, do sapo e da jibóia, que circulava na selva, passado de boca em boca, entre intervalos digestivos, mais ou menos prolongado, de cada espécie daquele ecossistema em ruínas. O Hugo, um investigador modernaço e teimoso, como todos os Santos que fazem milagres e têm a invulgar capacidade de compreender e falar com os animais e vegetais da selva, foi alertado por um pica-pau anão, (uma rara espécie descoberta recentemente) sobre o conteúdo do referido manifesto. Intuitivo, quanto baste, bateu na porta do lagarto-sem-pernas-que-sabia-ler, piscou o olho ao morcego-azul, acenou o hipopótamo-que-sabia-tabuada e convidou todos os outros animais e vegetais da selva para uma hipotética acareação ou reunião que contribuísse para desanuviar o ambiente de pré-contestação ao seu desafio de transformação da selva num ecossistema mais dinâmico e luminoso. De facto, até o Sol abandonara aquele habitat, que Deus criou, em prol do desenvolvimento de determinadas espécies de plantas, animais e fungos.

O lagarto-sem-pernas-que-sabia-ler, o hipopótamo-que-sabia-tabuada, a girafa, o sapo, a jibóia e os filhos destes últimos três, responderam, no início, negativamente, ao desafio do célebre investigador Hugo. Aliás, esta era a prática usual naquela selva. No entanto, todos os animais, vegetais e fungos da selva reuniram-se, naquele dia, na gruta do morcego-azul para discutirem, com o investigador Hugo, sobre o destino da selva. Os ratos, as moscas e os últimos exemplares de linces também compareceram. O investigador Hugo agarrou numa liana e, qual Tarzam, mostrou as suas habilidades multifacetadas indo parar, num salto mágico, ao cimo de uma saliência exuberante de uma estalactite. Com um megafone improvisado, construído com folhas entrelaçadas de palmeira, começou o seu sermão:

«…Dêem o Sol aos animais e plantas. Não deixem as lianas crescerem, de forma tão parasitária e caótica, cobrindo as copas de todas as outras árvores, sufocando as outras espécies, privando-as do Sol. Dêem alguma humidade aos musgos. Deixem os caracóis estivarem…»

Um silêncio incomodativo rasgou as caras da girafa, do sapo e da jibóia, enquanto as outras espécies ficavam endiabradas ou embevecidas com o atrevimento do mais nobre pregador que passara, até então, pela selva.

Ouvia-se, cada vez com mais intensidade e enquadramento rítmico faunístico:

- Ai, está… Hugo! Hugo! Hugo! Ai, está… Hugo! Hugo! Hugo!

As lianas e outras criaturas fixas replicavam, ao sabor das traquinices do vento:

- Santo Pregador! Santo Pregador! Santo Pregador!

O investigador, embalado no seu propósito evangelizador, como os raios de luz que passaram a entrar, de repente, naquela selva, continuou o seu discurso:

- E tu Girafa camelopardalis!? Já reparaste, que, por todo o lado por onde passas acabas por deixar a tua marca contraditória entre o desejo incontrolável de chegar ao céu e a tua pequenita cabecinha? Queres chegar ao céu só com as pernas e o pescoço? Por que razão só aproveitas as tuas longas pernas e pescoço para, selectivamente, cuidares da tua alimentação, escolhendo as folhas mais tenras e verdes das árvores? Tratas mal, até os teus próprios filhos! Deixa-te de exibicionismo bacoco e estéril. Dá um pouco mais de ti à comunidade biótica.

A partir daquele momento, começou o alvoroço total. Em roda, mais ou menos desorganizada, entre as estruturas da gruta, os animais e vegetais daquela selva, incluindo os filhos da girafa, faziam uma autêntica festa.

A girafa, descontente e enraivecida, deu uma valente cabeçada no autocarro que o investigador Hugo levou à selva para transporte de algumas amostras de solo, tendencialmente degradado, e estatelou-se no chão.

Em uníssono, todas as plantas declararam:

- Até na morte ela foi inteligente!

O investigador Hugo, tirou, momentaneamente, os óculos da cara, e reiterou o seu propósito de luta pela justiça na selva, dirigindo-se directamente ao sapo-boi:

-Tu, Bufo ictericus, não podes continuar a comer assim…

- Bufo o quê?! Responderam com ar de gozo todos os outros animais.

O investigador Hugo, depois de esclarecer e explicar a essência do nome científico atribuído ao sapo-boi, continuou o seu discurso:

- …Como eu dizia, tu, sapo-boi, és o representante de um dos grupos de animais que apareceram em primeiro lugar na Terra. Estás sempre de bem com os peixes e com os coelhos, na medida que és um anfíbio. És o rei da intriga cá na selva, por isso disfarças bem. Já todos conhecemos a tua camuflagem. Até as bruxas não dispensam o te favor.

Antes do investigador Hugo acabar o seu discurso, os girinos, em corrida louca, e todos os outros animais, encheram a gruta de uma alegria nova:

- Olê, Olê, o Hugo é o maior… Olé, Olé, o Bufo é o traidor…

A partir daquela altura, o sapo-boi entrou num estado de depressão profunda. Só comia, comia…. Isolou-se num canto da selva e continuou a comer desalmadamente. Passados três meses ninguém o reconhecia. Tinha engordado bastante. Já não dava saltos e as membranas interdigitais pesavam, cada uma, 1378 quilos. Cada movimento seu, por mais lento que fosse, provocava um sismo na selva. Para evitar problemas de segurança amarraram-no numa árvore gigante, lá da selva, onde, ainda hoje, permanece inerte.

O investigador Hugo, qual Lineu no seu apogeu intelectual, olhou para todos os cantos da gruta e descobriu a jibóia toda enrolada numa presa, era um dos filhos do lagarto-sem-pernas-que-sabia-ler, que já estava parcialmente morta. Era a décima vítima da jibóia numa só semana. Isso não era normal, até porque a mesma tem uma digestão lenta. Ela, no entanto, não matava para comer. Era um instinto neurótico-obsessivo que desenvolveu, na selva, por vingança, tendo em conta o estado degradante da sua amiga e confidente sapo-boi. Aproximava-se lentamente da vítima, abraçava-a, inicialmente com leveza e carinho, para, posteriormente, esmagá-la completamente com toda a sua força.

O investigador Hugo, saltou do lugar onde se encontrava e disparou:

- Tu, Boa constrictor! Como é possível matares, indiscriminadamente os teus irmãos. Nem dos teus filhos sabes tratar. Estás farto de matá-los. É este o teu contributo para a vossa comunidade biótica? Mereces um castigo severo!

Interrogou, de seguida, aos presentes na reunião:

-Que castigo, acham vocês, que a nossa Boa constrictor merece?

Todos, em conjunto responderam:

- Vamos assá-la num forno solar gigante.

Foi esta a decisão que prevaleceu, de acordo com o resultado de um referendo mandado realizar, na selva, pelo investigador Hugo.

Passados três meses, o lagarto-sem-pernas-que-sabia-tabuada enlouqueceu e o hipopótamo-que-sabia-tabuada ficou cego. Ambos passam a vida a apanhar e comer pedaços de carne que, diariamente, soltam-se do corpo do sapo-boi.

O investigador Hugo, antes de abandonar a selva, fez 33 anos e a comunidade da selva fez-lhe uma grande festa. Ele trouxera, definitivamente, a paz e serenidade àquela selva.

Passaram a chamá-lo Hugo, “O Pregador”.

A.C

 

 

publicado por adelino às 16:21
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1 comentário:
De O pregador a 23 de Fevereiro de 2012 às 23:52
Passados este tempo todo decidi passar novamente aqui... Queria dar-te um abraço! Tenho saudades de conversar contigo! Lembro-me de ti e das nossas conversas muito frequentemente... Como não arranjei outra maneira de contactar contigo decidi fazê-lo por esta via!
Aqui pelos Açores está tudo bem...
Espero que contigo também esteja tudo bem.
Um grande abraço. Dá um beijo à Lurdes e um abraço ao Eduardo...
HS, O Pregador.

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