Domingo, 4 de Março de 2007

O Pão, a Fruta e a Fruta-Pão

 

Era uma vez um pão, como qualquer outro pão: algumas vezes torrado devido aos caprichos do forno; e, noutras, suave e claro como as nuvens. Mas, não deixava de ser pão, como qualquer outro pão de igual ou desigual latitude. Toda a gente tratava-o por pão. Queria ser simplesmente pão. Simplesmente, todos comiam este pão. Raramente falava-se noutra coisa que não fosse do pão. O senhor pão tornou-se, assim, numa espécie de símbolo de respeito, de reverência e de força geracional. Foi neste tempo que se banalizou o provérbio “sem trabalho não há pão”. Por isso, toda a gente trabalhava e queria ter o seu pão. Uns anos depois, uma espécie invasora, chamada fruta, decidiu afrontar os privilégios do senhor pão que passeava a sua classe nos quintais da generalidade das pessoas. Como qualquer espécie invasora a senhora fruta não pediu licença nem se atemorizou com o respeito, consideração e força que o pão granjeou junto do povo. Começou a comportar-se como uma praga. Havia frutas anãs, médias, desajeitadas, oportunistas, cínicas, egoístas, dissimuladas, famintas, gordas, magras, etc. Foi a partir desta altura que o povo começou a “comer o pão que o diabo amassou”. Não satisfeita com a façanha, a senhora fruta foi crescendo, crescendo, e, espalhando as suas raízes. Num ápice, transformou-se numa comunidade clímax, completamente estável no novo ecossistema. Passaram a chamá-la fruta-pão. A senhora fruta-pão deixou a roça, em direcção à cidade, e, instalou, comodamente, as suas raízes nos ícones mais importantes da praça. As suas impiedosas raízes partiram os passeios e toda a estrutura do GGA, e, as suas carícias abriram brechas nas paredes vulneráveis da EMAE, depois de ter feito outros estragos consideráveis no seu percurso de vitória declarada. Os ministérios, repartições públicas e, até, os poucos balneários públicos que existem na terra não foram poupados. Na semana passada viram-na no liceu nacional onde os estragos provocados parecem ter proporções gigantescas. Há quem vaticine que tudo isto é, ainda, uma brincadeira, tendo em conta os caprichos e ambições da senhora fruta-pão, que, já pôs em marcha os seus planos de internacionalização da marca. É a partir desta altura que se começou a generalizar, junto da plebe, o provérbio “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Pudera! Elas são todas iguais ou diferentes? A minha avó, Maria Preta, sempre invocou os traços de irmandade sanguínea que transformava estes seres no mais perfeito simbionte existente nas ilhas. Elas invadem-nos os quintais sem pedir licença; da mesma forma que, em competição desigual com outras espécies, no arvoredo lá da roça, não hesitam em roubar-lhes o Sol sufocando-as lentamente. São grandes em tudo: raízes, tronco, folhas e fruto. Por isso, dominam a floresta. São impiedosas e agressivas e não têm de pedir licença a ninguém. Penso que nunca pediram licença nem agradeceram a ninguém. Rejeitam amadurecer e, quando o fazem, deixam de ter utilidade. Permanecem verdes ou pontadas. São mais saborosas assim e, no entanto, não há dentes que as resistem. Entretidos, como estamos, na festa, interiorizamos a ideia de que a comemos. Será que a comemos mesmo? Para amplificar este convencimento privado, tratamos estes seres como monarcas que são: não podem apanhar pancada de espécie nenhuma, e, quando queimadas, têm direito a carícias que as deixam com a pele renovada e cobiçada. Há casos extremos de subserviência incompreensível, e, por isso, algumas destas criaturas são lingadas, simbolizando o seu poder gerador.

Não há cozinha que não entram; festa que rejeitam; ou, ainda, mesa que atrapalha a vaidade das mesmas. Esta arrogância e vaniloquência, constitui a imagem de marca destas criaturas. Na gravana emagrecem; mas, mesmo assim, passeiam a rebeldia verdejante nos corredores das feiras, como se nada estivesse a acontecer. Engordam sempre, lá mais para frente, quando a insensatez e autismo da chuva, enche-lhes o ego, num servilismo que engrossa e fortalece as suas raízes. Descobrimos, então, que são todas iguais. Nunca foram diferentes. Será que podemos viver sem elas?

O senhor primeiro-ministro, preocupadíssimo e comovido com a saga devastadora do bicho, declarou, recentemente, que da parte do seu governo tem feito tudo para controlar os estragos que o mesmo tem provocado, salientando, contudo, que, «… é necessário que haja boa vontade da parte dos próprios dirigentes (dos Tribunais) e magistrados para melhorar a imagem, que não é muito abonatória, da nossa justiça…» O povo ficou a saber, a partir desta altura, que a lei não chega a todo o lugar e, muito menos, aplica-se a todos da mesma maneira, porque o nosso “poder judicial”, ou parte dele, não quer que assim seja. A fruta-pão agradece! No entanto, já se verifica, no país, registos insólitos de realização da justiça pelas próprias mãos. Quando tal começar a generalizar-se, ou, em alternativa, os arguidos, acusados ou condenados comuns, começarem a exigir tratamento semelhante, ao da senhora fruta-pão para crimes desta e/ou de outra natureza, estarei atento para ouvir as declarações e preocupações do tal “poder judicial”.

 A.C

 

 

 

 

publicado por adelino às 20:16
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. A Morte de Chico Paleio

. Bons e Maus Chefes de Coz...

. A Ilusão do Poder de Sãm ...

. O Festim Carnicento dos “...

. O Presunto dos Bufados

. Branco mas Pouco Transpar...

. O Curandeiro, o Médico e ...

. Um Príncipe Quase-Perfeit...

. Mexer no Sistema para Mud...

. Os Aprendizes de Feiticei...

.arquivos

. Janeiro 2011

. Setembro 2010

. Fevereiro 2010

. Agosto 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Janeiro 2008

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Julho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Janeiro 2005

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds