Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Orgulhosamente Corruptos

 

Realizaram-se as eleições legislativas em S.Tomé e Príncipe. O novo governo já tomou posse e, entre discursos de circunstância protocolar e intenções programáticas, não se vislumbra nada, de novo, bom e desejável, com a finalidade de romper com a nossa desorientação colectiva e lamúria cíclica. Senão vejamos: desde o início da campanha eleitoral para as eleições em causa, até ao final da mesma, não se falou doutra coisa que não fosse o problema da corrupção no país. Foram feitas acusações e contra-acusações, nos púlpitos improvisados, com o objectivo de se entreter a plebe; discursos inflamados, com conteúdo personalizado relacionado com a corrupção, tinham como resposta doses pungentes no sentido inverso; programas e espaços de antena, televisivos e radiofónicos, só tinham como conteúdo a publicitação, acusação e desmontagem de casos de corrupção da suposta elite política que até ao momento governou o país. Qualquer turista em visita ao país, naquele momento, sairia daí com a sensação de que S.Tomé e Príncipe seria um antro da corrupção no mundo. Um extra-terrestre que aterrasse no arquipélago, naquele momento, estaria até hoje a soletrar com relativa facilidade a palavra, COR-RU-PÇÃO, de tantas vezes ela ter sido utilizada durante os quinze dias de campanha eleitoral no país.

 Qualquer pessoa poderia pensar ou presumir que, tendo em conta, a amplitude do alarme, das acusações e contra-acusações sobre o fenómeno em causa no período da campanha eleitoral, estaria encontrada a maior preocupação do actual governo, para acabar com a lamúria em torno do problema e arrancar o país para a fase do desenvolvimento. Pura ilusão! Não há sinal nenhum de fumo neste sentido: do ponto de vista discursivo, programático, organizacional, legislativo, metodológico ou operacional. A imagem que se passa para a comunidade nacional e internacional é de uma classe política orgulhosamente corrupta, que nos momentos eleitorais procura compartilhar este propósito singular com a generalidade dos Sãotomenses.

Não muito distante, em Cabo-verde, chega-nos a informação da realização naquele arquipélago, durante dois dias, de um seminário sobre a corrupção, em parceria com o Escritório Regional das Nações Unidas contra a Droga e Corrupção. As medidas recomendadas pelo referido seminário incluem: a constituição de um grupo de trabalho interministerial alargado e com a participação da sociedade civil, sem competência penal, para sistematizar e coordenar as orientações estratégias do Plano Nacional Contra a Corrupção; reforma institucional com eventual proposta de criação de um núcleo central na Procuradoria-Geral da República que recolherá, tratará e coordenará toda a informação existente em matéria de corrupção no país.

Mais perto ainda, em Moçambique, a primeira-ministra, Luísa Diogo, pediu ou exortou aos auditores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que se envolvessem em assessoria, no combate a fraudes e corrupção nos países que integram a referida organização. Rematou a referida governante: «… a cooperação entre os auditores, organismos públicos e privados é de extrema importância no combate à corrupção e à burocracia de modo a promover-se a eficiência e a transparência na gestão da “coisa pública”… Só assim podemos merecer a confiança dos cidadãos em relação às nossas instituições…»

Muito mais perto ainda, em Angola, sobretudo ao nível do discurso político por parte do maior partido da oposição, há sinais de mudança. A UNITA já propôs, por mais do que uma vez, a constituição de uma Alta Autoridade Contra a Corrupção em Angola, como forma de minimizar as consequências deste fenómeno neste país.

Nós, orgulhosamente corruptos, vamos entrar de peito cheio na era do petróleo.

 A.C

publicado por adelino às 16:51
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2 comentários:
De jose torres a 9 de Maio de 2006 às 00:26
Onde há dinheiro fácil, (petróleo, ouro, urânio, etc. ), há sempre corrupção.
Maldito o ser humano !
Não é só em África ou na Ásia, é em todo o mundo !!!
O ser humano só nasceu com um bolso, o seu !
De adelino a 10 de Maio de 2006 às 17:50
Maldito bolso caro José!!! Existe, de facto, em todas as latitudes. Todos os silêncios, do mundo, ajudam a multiplicar a ocorrência de partos de seres humanos com bolsos mais fundos cada vez mais...

Cassandrex

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