Sexta-feira, 28 de Abril de 2006

As brincadeiras do Barrabás e Ferrabrás

 

 

Tendo revisto “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson e revisitado excertos de uma passagem do Novo Testamento, eu acordei na Sexta-Feira Santa debaixo de um terrível sonho. No referido sonho estava eu, no meio de uma imensa multidão, no interior dos muros da cidade de Jerusalém. Havia ai de tudo: desde pessoas que choravam desalmadamente perante a possibilidade real do sacrifício de um inocente; passando por outras que deliravam de satisfação tendo em conta a libertação ou vitória eminente de um criminoso. Juro, no entanto, que não me lembro de mais detalhes do referido sonho. Vendo, todavia, o desenrolar dos acontecimentos, pré e pós-eleitoral, em S.Tomé e Príncipe tenho dificuldades em distinguir a realidade local, neste contexto temporal concreto, das passagens significativas do referido sonho. De facto, no dia 26 de Março, os anciões, com muitos dólares pelo meio, persuadiram a multidão que escolhesse Barrabás e matasse um inocente. O povo assim fez! Esta atitude foi posteriormente confirmada no dia 2 de Abril. Então, o povo voltou a gritar: Barrabás!!! Barrabás!!! Como em ocasião anterior, o povo é quem mais ordena, Barrabás venceu! Não demorou muito tempo, no entanto, para vermos e confirmarmos a saga irresponsável, de má fama e de perturbador da ordem pública do Barrabás. Empunhado toda a artilharia e outros armamentos pesados decorrente da sua condição de ministro do quintal, e acompanhado de seus seguidores armados até aos dentes, o inefável Barrabás invadiu o Supremo Tribunal Constitucional, ameaçou a sua Presidente, distribuiu gracejos aos transeuntes que acompanhavam a normalíssima operação e, ainda teve tempo de, contar anedotas em directo através dos órgãos de comunicação social. Depois de tudo isso, já há quem começa a admitir e apregoar que, provavelmente, somos um país inventado por Deus com a finalidade de entreter o mundo com as nossas brincadeiras e anedotas, especialmente em tempos de crises internacionais, ou instabilidade, como a que vivemos. A brincadeira do Senhor Barrabás foi milimetricamente planeada e cirurgicamente executada com objectivo de cercear ou limitar as competências do referido Tribunal, impressionando e intimidando a sua Presidente e alguns dos seus pares. A parada tem estado sistematicamente a subir. Desta vez descobrimos no quintal um Barrabás que não hesita em utilizar toda a sua artilharia pesada para impressionar uma mulher do nosso poder judicial. Já não nos bastava ter de suportar a sofreguidão e desespero do Ferrabrás em processo de conversão forçada ao Cristianismo, com tudo de instabilidade que isto acarreta para a solidificação do nosso processo democrático; agora, temos também de levar com as brincadeiras, mau feitio e fama e irresponsabilidade do seu amigo Barrabás. Eles vão-se divertindo no quintal contribuindo, com a sucessão das suas brincadeiras irresponsáveis, para a influência e/ou determinação das condutas sociais dos outros. A última sublevação militar que aconteceu no país traduz a constatação real deste facto. Não me admiraria nada, daqui por algum tempo, ver no nosso país: alunos sequestrando professores, alegadamente, por problemas relacionados com avaliação daqueles; Juízes sendo espancados, até a morte, pelos arguidos, por estes discordarem das penas aplicadas; soldados prendendo seus superiores hierárquicos por negação de cumprimento de missões militares; funcionários públicos desobedecendo, maltratando e enforcando as respectivas chefias por incumprimento de promessas salariais. Aliás, a festa já começou segundo as palavras de um juiz que, em conferência de imprensa, declarou recentemente ter recebido ameaças de morte por parte de um político nacional. Alguns dirão nesta altura que se trata da cultura da Feira de Ponto. Eu continuo a achar que é a cultura de uma certa elite instalada no poder que no entanto é reproduzida pela Feira de Ponto. Este quadro de terror, relativamente ao futuro, não me parece de todo tão distante e impraticável na medida que, o poder dos poderosos aparece ou existe na nossa sociedade, como um dado inquestionável, embora, todos conheçamos a sua origem e essência. A consequência de tudo isto é que cada indivíduo tentará à sua maneira e segundo as suas habilidades, capacidades e vocação, obter o seu poder e concretizar as suas ambições pessoais e expectativas, imitando ou reproduzindo exemplos que detectam na conduta dos nossos principais políticos. Quando tal começar a acontecer com frequência e consequências desastrosas, veremos estes mesmos políticos, travestidos de moralistas de ocasião e impolutos cidadãos, querendo transferir a responsabilidade dos seus actos para o povo que, não faz mais nada do que macaquear as receitas e brincadeiras destes políticos irresponsáveis. Admito que as coisas têm acontecido desta forma na nossa terra, de forma cíclica, devido aos efeitos das múltiplas pressões externas, (materiais e emocionais) problemas estruturais de natureza político-partidária, bem como, a força de interesses privados identificados que estão associados à relação com o poder político, que são mais fortes do que os princípios que deveriam legitimar este mesmo poder político. Isto faz com que os nossos políticos, genericamente falando, façam sistematicamente o que deviam começar por não fazer e, passam a vida a justificar o que continuam a fazer, com as consequências daquilo que fizeram antes. O problema do “Banho” nos momentos eleitorais no país e as recentes brincadeiras do Senhor Barrabás reflectem esta realidade. Estando em causa, simultaneamente, o problema da nossa vivência democrática e das instituições políticas do país, tudo isto leva-me a pensar que alguém está a preparar, objectivamente, o caminho para a tirania que, é a maneira, julgo eu (e pensam eles) de resolverem em conjunto, ambas as coisas. Para a brincadeira em causa ganhar contornos de palhaçada geral, e assim continuarmos a entreter a comunidade internacional, nada melhor do que premiarem o Senhor Barrabás renovando-lhe o título de ministro do quintal. Só um Ferrabrás ferido e obstinado poderia lembrar de um feito desta envergadura. É bom, no entanto, não perderem a noção de que ser-se escolhido conjunturalmente pelo povo não é sinónimo de se ter razão. O êxito absoluto não existe em política. O mesmo povo ou multidão pode voltar a surpreender-nos.  

 A.C

 

 

 

publicado por adelino às 21:13
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