Sexta-feira, 31 de Março de 2006

Banho

O fenómeno que se vulgarizou com o nome “Banho” não pode nem deve ser comparável com aquilo que acontece em democracias mais avançadas e aparentemente consolidadas. E, qualquer tentativa de comparação destas duas realidades parece-me redutora e impertinente. Nestas democracias mais avançadas, (e não estou só a falar de países europeus) o essencial em qualquer campanha eleitoral é a mensagem política e propostas que são apresentadas ao eleitorado, estando o resto (pequenas oferendas de natureza simbólica) confinado ao acessório e folclore, como forma de entusiasmo festivo das próprias caravanas eleitorais e de potenciais eleitores. É por isso, que, todas estas oferendas são simbolicamente assinaladas com as siglas dos respectivos partidos e/ou coligações. De uma coisa temos todos a certeza: os responsáveis partidários falam dos respectivos programas eleitoras; debitam promessas, sendo que algumas delas não são cumpridas; criticam as propostas dos adversários; apresentam obras; discutem ideias e problemas que afligem as respectivas populações, etc. Os eleitores, os jornalistas, a opinião pública em geral e a comunidade internacional, não perdem tempo nem se lembram destas oferendas que, de facto, constituem o acessório. Por alguma razão isto acontece. Outra coisa completamente diferente, é reduzir toda a acção política desejável no período eleitoral ou pré-eleitoral, ao “BANHO”, ou seja, distribuir dinheiro (e outros bens valiosos) aos potenciais eleitores, comprando-os literalmente, transformando assim o acto eleitoral, numa espécie de leilão. É óbvio que, num contexto sócio-económico e cultural como o de S.Tomé e Príncipe, quem tiver mais dinheiro ganha as eleições. As propostas políticas não valem nada num contexto com estas características. Por isso mesmo, é que os políticos não se esforçam em fazer o trabalho de casa, pois estão convencidos que o mais importante é terem o dinheirinho para ganharem as eleições e mais tarde pensarem naquilo que vão fazer com o país. Por isso também, é que, abunda na campanha eleitoral acusações mútuas de corrupção em vez de falarem ou debaterem sobre os instrumentos que eventualmente utilizariam num hipotético governo, para minimizar os níveis de corrupção no país. Quem se lembra de uma proposta concreta levantada pelos partidos políticos nesta campanha eleitoral, com o objectivo de combater o problema da corrupção no nosso país??? No entanto, todos eles entretêm-se em acusações mútuas sobre o fenómeno em causa, e, segundo alguns entendidos na matéria, bem como os conteúdos de alguns relatórios que são produzidos por agências internacionais, a corrupção endémica é o nosso maior problema momentaneamente.

Em 2004, relacionado com este fenómeno escrevi isto: «…Num contexto de debilidade institucional a todos os níveis e limitativo em termos de reivindicação e participação cidadânica, estão criadas assim, desde a base até ao topo, as condições para o processo de COMPRA DO PODER, enquanto uma mercadoria ou negócio, posicionando-se já, na primeira linha, decorrentes do interesse e apetite pela temática petróleo no país, compradores endinheirados, de origem mais ou menos longínqua. Neste caso, o processo político como fenómeno de conquista da adesão do governado desaparece, e, os partidos políticos estão a transformar-se paulatinamente, em agências mercantis. Por isso, é que, se torna imprescindível muito dinheiro e envolvência de países terceiros bem identificados, nos momentos eleitorais em S.Tomé e Príncipe…»

Estas eleições só vieram reforçar aquilo que eu, naquela altura pensava, sobre o rumo que o nosso sistema partidário estava a tomar.

O curioso, é que são os próprios partidos políticos que já começam a achar a situação em causa insustentável e começam a transferir a responsabilidades dos seus actos para os eleitores e para o povo em geral.

 A.C

publicado por adelino às 23:51
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