Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005

"A agonia de Ferrabrás"

Entre choro das cornetas, rufar harmónico dos tambores e galope impressionante do seu cavalo, Fradique de Menezes, tal qual Ferrabrás, prometera reduzir às cinzas, resquícios da cristandade que, obstaculizava a mourização do pequeno Império que pretendia conquistar. Tendo recebido surpreendentemente a espada das mãos do pai – Almirante Balão – sob olhares e apetites estranhos, jurou fidelidade ao reino que ajudara a crescer e consolidar. Por isso, no balanceamento eufórico dos resultados das presidenciais, entre expectativas inocentes de figurantes crentes e pseudo-enterro faraónico de Pinto da Costa, exibe do alto do seu Castelo, estratégias, profecias e promessas que, ajudam a consolar o povo. Secundado por séquitos esfomeados, aconselhado por uma Corte milimetricamente escolhida e sob protecção de Mafoma, demite o então Governo de Pósser da Costa, sob pretexto de criação de condições para materialização do seu “Projecto de Sociedade”, num clima de maior estabilidade, suportado por um Governo de Unidade Nacional . Convencido da irreversibilidade da morte e enterro de Pinto da Costa, seria mais fácil surpreender o pai metendo-se em cavalarias altas. Neste sentido, convida Gabriel Costa para Primeiro Ministro, fomenta e dirige contactos que possibilitam a formação do referido Governo de Unidade Nacional – aparentemente sem ferir susceptibilidades ao nível de interesses político-partidários existentes – e proclama-se chefe do poder executivo, não dispensado a faculdade de presidir os Conselhos de Ministros e dinamizar, mesmo à distância, os objectivos operacionais do referido Governo. Organizada a estratégia para implementação do seu “Projecto de Sociedade”, enfrenta de forma ingrata e imprudente o pai, que, lhe oferecera a espada de aço tão bem utilizada no combate aos cristãos. Durante a peleja, reabilita Pinto da Costa por conveniência táctica, como parceiro, e exorta as tropas ao combate sem tréguas aos cristãos. Num registo profético ímpar, idealiza, sustenta e publicita o projecto de garantia de felicidade para todos os Santomenses num contexto temporal de dois anos – nem mais nem menos . Para o povo e generalidade dos analistas e observadores, mais ou menos atentos, este rasgo profético de Sua Excelência Senhor Presidente da República, serviu para consolidar a ideia – expressa anteriormente pelo próprio em actos e palavras – do efectivo poder executivo que passava a deter a partir de então. Nos intervalos de peleja contra a multiplicidade de adversários que adquirira de forma provocatória – por necessidade de afirmação forçada – e, entre goles do bálsamo que lhe revitaliza a alma, promete acabar com todas as formas de corrupção no país e prender todos os prevaricadores. O povo ouve, rejubila mas começa a ter dúvidas . Não satisfeito com a façanha, promete rasgar e não cumprir os contratos assinados voluntariamente pelo Estado Santomense com a empresa ERHC – detentora de interesses na área do petróleo no país – e, irado com as traições de Mafoma, lembra e reitera ao povo a intenção de ir-se embora, se assim quisessem, na medida que, estaria a perder muito dinheiro exercendo as funções de Presidente da República. Provavelmente terá começado aí, os primeiros passos da provável rendição e conversão ao Cristianismo do Ferrabrás. A lenta agonia leva-o ao desespero, e num gesto irreflexivo, demite o Governo que, desalinhara perante uma ilegalidade cometida pelo próprio Fradique de Menezes. Não deve existir minimização ou anulação de responsabilidades para pequenas ou grandes ilegalidades, pequenas ou grandes imprudências, nem para pequenos ou grandes desastres políticos, praticados pelos representantes do poder no país – quaisquer que sejam – sobretudo quando estes mesmos actores políticos, apresentaram como bandeira estratégica para a sua eleição – posteriormente reiterada no programa do Governo – a restauração da autoridade do Estado no país . É difícil restaurar a autoridade do Estado no país, se, o próprio Presidente da República comete uma ilegalidade grosseira – promoção ilegal de dois oficiais das Forças Armadas, entre os quais o Ministro da Defesa – provocando com isso, um terramoto político no país e, posteriormente, cria condições através de manipulação política directa ou indirecta dos factos, para que a transferência de responsabilidades possa convergir na pessoa do Senhor Primeiro Ministro, sendo ele próprio, por opção estratégia e desejo, detentor de um efectivo poder executivo – Presidencialismo de forte componente personalizada . Num contexto de interiorização e assunção clara por parte de todos, relativamente ao objectivo operacional de restauração da autoridade do Estado no país, devia ser acompanhado por todas as partes com gestos claros e pedagógicos, indiciadores daquele propósito, sobretudo por parte da mais alta figura do Estado. Naquela modalidade de estratégia política – Presidencialismo de forte componente personalizada – escolhida e adoptada pelo Senhor Presidente da República, não há lugar para o erro e, quando este se manifesta, só pode dar lugar a abdicação ou ser encoberto com manipulações dos factos e posteriormente, pela repressão. Por isso, é uma fórmula difícil ou impossível de materializar em democracia ou só pode existir num quadro de emergência, por um período curto sem estatuto de uma verdadeira estratégia política. Aliás, o próprio Presidente da República, embora não tenha a consciência plena das limitações desta estratégia política, já dá sinais de cansaço, reiterando repetidamente a intenção de ir-se embora. Além disso, parece óbvio que, em situação contextual de : restauração da autoridade do Estado; de credibilização de medidas governativas junto da opinião pública e de pedidos reiterados às populações para que prolonguem o peso de sacrifícios que suportam, devia ser acompanhada por discrição nas acções, coerência nos julgamentos e equilíbrio na autoridade, sobretudo por parte do Presidente da República. Por isso, não se percebe muito bem, a atitude do mesmo no dossiê petróleo . É legítimo, oportuno, desejável e acertado, denunciar as eventuais ilegalidades do contrato assinado pelo Estado Santomense com a empresa ERHC, indiciador das preocupações do Senhor Presidente da República com os interesses legítimos do seu povo. Mas, se existem de facto ilegalidades gritantes no suprareferido contrato que, colocam em causa os interesses do Estado Santomense, seria razoável pensar que, o ónus da culpa não poderia ser transferido totalmente para a empresa em causa. Não consta em nenhum lugar, que, o Estado Santomense tenha sido obrigado a assinar o referido contrato. Não terá o Senhor Presidente da República legitimidade reduzida e perspectiva de sucesso ínfima, ao abrir uma “Guerra Externa” sem se preocupar preliminarmente em descobrir e eventualmente punir, política e judicialmente, os prevaricadores “internos” da propalada asneira ??? Creio que, o maior foco de instabilidade política momentânea no país, é a modalidade de estratégia política adoptada pelo Senhor Presidente da República, inviabilizadora de um sistema partidário com as nossas características . Não havendo predisposição para a mudança, todos os eventuais erros de Sua Excelência Senhor Presidente da República, trarão sintomas de crise e instabilidade, isto se não terminarem com uma eventual abdicação do próprio – já manifestada várias vezes – ou serem encobertos pela manipulação política directa ou indirecta dos factos, como aconteceu desta vez. A teimosia num Governo de Unidade Nacional, só pode ajudar a retardar a explosão da “bomba”, na medida que, neste contexto a exploração e aproveitamento político do erro alheio é menos assumida por pares da coligação. Não há aço nenhum que resista a uma sucessão de trapalhadas, num contexto político com estas características e, parece-me evidente que, os passos para a Cristianização do Ferrabrás já começaram .


Cassandrex


28 /10 / 2002

publicado por adelino às 22:34
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