Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005

"Bocadu indigesto do Governo"

Quarta-Feira de Cinzas! Num contexto de recatamento, prolongamento penoso e insustentável de um “Nozadu” célebre e pedidos de sacrifícios, reiterados à generalidade das pessoas da freguesia, o governo resolveu patrocinar o “Bocadu” deste ano, empanturrando os presentes com azagôa e djogó, cozinhados levemente e com insuficiência de condimentos. Quinta e Sexta-feira Santas! Quarenta e três dias após a aventura organizativa do dito “Bocadu”, ainda existem resquícios de mal-estar evidente. Entre pânico diarreico dos promotores da iniciativa, provocado pela inesperada reacção da plebe, excessivamente generosa habitualmente, e desespero do ancião que, projectara sedimentar o seu poder entre promoções periódicas de “Nozadus”, um grupo de desalinhados atrevera importunar o silêncio sacrífero da nossa Sexta-feira Santa. Este episódio provocou uma tempestade no país, pelo arrojo, ineditismo temerário e desalinhamento com os contornos da praxe imposta. Nunca tal acontecera no país no actual regime, e, nem o simbolismo ritual da época fora suficiente, para mascarar os contornos da revolta e realçar a epopeia dos anciões que, desdobraram em intervenções aos órgãos de comunicação social, relatando as suas opiniões e descrições dos acontecimentos, de forma enfática e ameaçadora. É verdade que temos uma componente judaíco-cristã na nossa cultura, cuja retrospecção deve ser enfatizada, mas, não se resolvem crises desta envergadura, com processos evocativos de natureza religiosa, com cenários catastrofistas de mais polícias para a rua com intenção de cercear a liberdade de opinião e/ou de manifestação das pessoas, ou ainda, com relatos intimidatórios, ou processos de intenção sem provas fundamentadas, de generalização de prisão para supostos cabecilhas da iniciativa. Isto torna-se menos compreensível ainda, sobretudo, quando a prática política num passado recente, situava-se nos antípodas destes propósitos. Quem não se lembra de comícios-espectáculos inflamados, aquando da crise de revisão constitucional, com beneplácito de Sua Excelência Senhor Presidente da República que, contribuíram directa ou indirectamente, para a banalização da actividade dos deputados nacionais e consequentemente, da própria autoridade do estado? Quem não se lembra de expressões como: Deputados são ladrões! Deputados para rua! Não sendo actos comparáveis em termos de expressão arruaceira, são contudo similares, no contributo que conferem, em termos de erosão dos pilares da autoridade do estado. Não se admirem pois, que, estes fenómenos ganhem relevância e expressão dramática, quando os contributos que vêm de cima não são compagináveis com a essência e pedagogia democráticas. A acção política, qualquer que seja o grau de poder que lhe esteja associado, só se transforma em realidade concreta, se for compreendida e prosseguida pelos diversos grupos sociais. Por isso, cada vez mais, faz menos sentido, o recurso ao chavão, considerando o estado como um conjunto de organizações que possa ser apropriado, somente por imposição dos resultados eleitorais, descurando a montante, a preparação, objectivos e interesses comunitários inerentes à delegação do poder em causa. Por tudo isso, e ao contrário daquilo que pensa a generalidade das pessoas, eu creio, que, fenómenos dramáticos recentes que aconteceram no país, são sintomas de uma “revolução silenciosa” começada há dois ou três anos atrás, fruto da mudança de um ciclo político por outro, que ainda não se estabilizou, bem como a crise de valores, associada aos problemas sócio-económicos graves, que tendem a perdurar, e, ajudam a amplificar o problema. Do ponto de vista político, torna-se relevante salientar que, num contexto de forte personalização da vida política e, tendo em conta os papéis desempenhados por Pinto da Costa e Miguel Trovoada no país, é natural que a despedida dos mesmos acarrete problemas de afirmação de novos rostos ou figuras na cena política nacional. Não é por acaso que, existe uma forte unanimidade, em torno da ideia, relativamente ao facto de serem os dois, a escolherem os seus respectivos sucessores, independentemente da dinâmica, objectivos, interesses ou quaisquer estratégias partidárias. Infelizmente as coisas ainda se passam assim! Isto por si só, provoca pequenos tremores de terra, de intensidade variável, controle e resolução difíceis. Por outro lado, a recente crise de revisão constitucional que opôs dois órgãos importantes de soberania – Assembleia Nacional e Presidência da República – resolvida de forma aparentemente saudável, contribuiu para minar a essência da actividade política no país, - sobretudo do ponto de vista psicológico – na medida que: - anestesiou as referidas instituições do país que, momentaneamente deixaram de existir, de ter peso político e institucional desejável, fruto do desgaste que foram submetidas durante o processo em causa e dos contornos encontrados para resolver a referida crise; - mudou o centro de gravidade de conflitualidade política no país, para outras paragens, ou seja, permitiu a deslocalização da dinâmica conflitual inerente à qualquer sistema democrático, para zonas interesses ou grupos, até então, pouco expressivos em termos de iniciativa política no país. Se por um lado ficou demonstrado a vitalidade da nossa sociedade civil, por outro, pode tornar-se insustentável num contexto temporal ilimitado, porque ajuda a diluir a essência dos instrumentos mais poderosos de acção política no país que, são os partidos políticos, - pouco funcionais e organizados – e a fomentar formas avulsas, descoordenadas e caóticas de intervenção política na nossa Terra, cujo exemplo mais recente foi a presente manifestação, com os resultados que se conhecem. Esta fragilidade da Assembleia Nacional por factores supracitados, tornou-se aparentemente irreversível, pelo menos para qualquer observador atento da política nacional, pelo facto de, parecer existir, uma espécie de pacto secreto, entre o Governo e a Presidência da República, manifestado através da concordância e conteúdo discursivo similares, desprezo aparente pelas iniciativas fiscalizadoras daquele órgão legislativo do estado e reforço da solidariedade institucional entre estes dois órgãos. Não havendo formalmente oposição na Assembleia Nacional pelos constrangimentos inerentes à formação de um Governo de Unidade Nacional alargado, haverá tendência para minimização do estatuto do direito da oposição e consequentemente do trabalho, actividade ou importância da Assembleia Nacional. Neste contexto, é justo pensar que, quando a funcionalidade dos partidos na sua acção de fiscalização não fica provada em resultados socialmente perceptíveis ou, pelo menos, satisfatórios para os grupos sociais que se candidatam representar, a sua utilidade social fica anulada. Temo, ver já nas minhas próximas férias, todo o litoral do meu Príncipe, repleto de yankees contratados, de pistolas nos coldres, ar intimidatório, vestidos a preceito e com tiques suficientemente censórios, com o objectivo de afastar ou minimizar eventuais tentativas comprometedoras da suposta paz e tranquilidade que se irá viver nos areais.


Cassandrex


21 / 04 / 03

publicado por adelino às 22:54
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