Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005

"Participar ! O embrião da mudança..."

Quem contacta com o cidadão comum Sãotomense, mesmo à distância, percebe que, para a generalidade dos mesmos, o conceito de participação na vida pública se restringe aos actos eleitorais cíclicos, e mais recentemente, aos “Comícios – espectáculos” que, ajudam a embevecer o povo. Mesmo as campanhas eleitorais que, deviam ser momentos de apresentação e debate das propostas dos diversos partidos políticos ou coligações, susceptíveis de fortalecer aquele âmbito de participação dos cidadãos na vida pública, têm transformado de forma aparentemente irreversível, em oportunidades raras de negócios para alguns, de desilusão para poucos e de encantamento para os profetas. Constrangimentos de natureza económica, social, cultural e sobretudo política, contribuem para maximizar este divórcio, cujos efeitos gangrenosos se espalham como um cancro por todas as instituições do país, sendo extensíveis a própria sociedade. Num contexto temporal não muito distante, estaremos todos neste “Santuário Vulcânico”, a estabelecer acordos com os espíritos, num cordão de culpabilidade incerta, convencidos que o “pagá dêvê” haverá de nos abrir a porta da cura. O nosso sistema político ainda encontra-se muito dependente de um conjunto extremamente restrito de personalidades e, existem deficiências crónicas no funcionamento das nossas estruturas partidárias, o que faz com que, os centros de formação de decisões socialmente eficazes, sejam ineficazes e muito vulneráveis às crises. Só assim se compreende que, diversos partidos políticos concorrentes às eleições, apresentem sistematicamente os mesmos projectos de sociedade de um determinado actor político e, no rescaldo de uma crise política e institucional no país, sejam os próprios partidos políticos – por mais paradoxal que pareça – a sugerirem uma eventual revisão constitucional, facultativa da concentração pessoal de poderes, típicas de um modelo presidencialista. Creio no entanto, que, o PRESIDENCIALISMO tenderá a agravar formas de personalização do poder, em todos os seus níveis de manifestação, sobretudo num contexto político já muito dependente de um número reduzido de personalidades e, reduzirá à nulidade, os partidos políticos que, actualmente se constituem como meras agências suaves de protesto e/ou de selecção dos candidatos ao poder, a isso se restringindo a sua funcionalidade no formalismo do pluralismo partidário e da dinâmica democrática. Além disso, parece-me óbvio que, não é a CONCENTRAÇÃO de PODERES que preenche as insuficiências e a inferior qualidade das propostas que são apresentadas, permitindo apenas a deslocação artificial e ilusória do problema em causa, para a dimensão do exercício do poder. Por outro lado, essa CONCENTRAÇÃO de PODER, inversamente proporcional aos mecanismos de controlo democráticos clássicos actualmente existentes na nossa Terra, – não existe oposição na actual conjuntura – pode permitir que, tendencialmente, um partido e / ou outra entidade qualquer, possa ser tentado a construir – inconscientemente até - um sistema ditatorial por meios ou processos democráticos. Mesmo os partidos políticos – PCD e ADI – que já se declararam favoráveis a uma revisão constitucional, aparentemente limitativa dos conflitos institucionais que minam o país, não consubstanciaram aquele propósito com : adequada clareza no diagnóstico; linhas de força para a referida revisão constitucional, susceptíveis de minimizar tais conflitos e autocrítica inerente à capitulação em causa. O conceito anteriormente referido de participação dos cidadãos na nossa vida pública é pobre, e explica em parte exemplarmente , a sensação colectiva de vazio que todos sentimos, não obstante a existência de um sistema partidário e outras formas de movimento associativo no nosso actual regime. Não menos distante, fica a frustração de que, poderíamos e deveríamos ser bastante melhores, relativamente ao nosso desempenho actual como cidadãos. A culpa não pode ser exclusivamente da propalada incongruência constitucional do nosso regime. Se temos potencialidades ainda escondidas, ao nível da agricultura, pescas, turismo e mais recentemente ao nível de recursos petrolíferos, por que razão não conseguimos transformar essa riqueza potencial em riqueza efectiva, para posteriormente procedermos de forma justa e equilibrada à sua redistribuição de forma a que todos possam ter benefícios ? A inércia ainda presente no nosso “modus vivendi” é caracterizadora da ausência de hábitos que todos temos de participar de forma consistente, regular, activa e empreendedora na nossa vida pública. É lógico que, o caminho incontornável para que possamos alcançar a EXCELÊNCIA, passa necessariamente pela qualidade da generalidade dos nossos políticos e gestores públicos – é disto que falamos – e neste contexto, a nossa constante AVALIAÇÃO dos seus desempenhos, bem como da QUALIDADE dos serviços que as respectivas entidades públicas prestam, deve ser interiorizada e materializada por todos. Quanto maior for a exigência, a crítica, a responsabilidade e consequentemente a constatação e demonstração do que está mal, junto de quem de direito, tornando público este mesmo descontentamento e, se possível juntando a voz dos outros à nossa, os DECISORES das candidaturas a Presidentes / Secretários Gerais de partidos políticos, a Presidência da República, a deputados, a presidentes de Câmaras , a directores dos diversos departamentos estatais e outras figuras da administração pública do país, passariam a fazê-lo com muito mais rigor e honestidade, sobretudo porque os riscos dos detentores do poder – quaisquer que forem – virem a perdê-lo serem maiores. Não esqueçamos que, um dos maiores defeitos – entre muitos – dos partidos políticos da nossa Terra é a ausência de actos concretos que, maximizam a responsabilidade, acção e projecto próprio, potencializadores da inauguração de outro tipo de funcionamento. Mas se diminuirmos ou reduzirmos à nulidade a nossa participação na vida pública, temendo represálias e/ou outros constrangimentos de quem detém o poder ou venha a detê-lo, estaremos a contribuir grosseiramente para o “stato quo” e Santo nenhum nos valerá . Não creio que, FLORIPES nenhuma, por mais competente que seja ou boa intenção que carregue, nos salvaria do passo final para o abismo. Todos temos responsabilidades - uns mais do que outros – no estado em que o país se encontra. Por isso, existem formas – umas mais clássicas do que outras – de participação efectiva na vida pública que estão ao alcance de todos : - para aqueles que têm uma vivência partidária ou simplesmente estão inscritos nos diversos partidos nacionais, devem maximizar os níveis de actividade das suas militâncias, serem mais exigentes na filtração dos seus representantes e concomitantemente mais rigorosos na execução dos seus programas e formação das listas partidárias que apresentam aos eleitores - RIGOR e EXCELÊNCIA devem ser exigidos prioritariamente em nossa casa ; - fazer parte de movimentos de carácter associativo – cultural, académico, desportivo, etc. – bem como participar de forma activa nas suas actividades, promovendo debates, tertúlias, etc. ; - tomar partido num sentido ou noutro, escrevendo nos jornais, grupos de discussão na Internet, na imprensa local – jornais de parede ou formatos reduzidos fotocopiados – expondo os nossos pontos de vista, acerca das diversas instituições públicas ou privadas, cujas decisões sejam importantes relativamente ao nosso destino colectivo. É provavelmente mais cómodo estar a gozar delícias de uma das nossas praias desertas, no reconforto de um bom vinho da palma . Todavia, se queremos de facto um país MELHOR, mais JUSTO e DECENTE, temos muito que fazer para merecê-lo.


 Cassandrex


10 de Outubro de 2002

publicado por adelino às 22:59
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. A Morte de Chico Paleio

. Bons e Maus Chefes de Coz...

. A Ilusão do Poder de Sãm ...

. O Festim Carnicento dos “...

. O Presunto dos Bufados

. Branco mas Pouco Transpar...

. O Curandeiro, o Médico e ...

. Um Príncipe Quase-Perfeit...

. Mexer no Sistema para Mud...

. Os Aprendizes de Feiticei...

.arquivos

. Janeiro 2011

. Setembro 2010

. Fevereiro 2010

. Agosto 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Janeiro 2008

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Julho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Janeiro 2005

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds