Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005

"Dispidi Longô angustiante"

Dezembro tem uma carga simbólica, evocativa dos contrastes que nos aprisiona em lugar nenhum. Por um lado, a vida familiar, afectiva e profissional, marcadamente territorial, impele-nos para formas de consumação de rotinas que maximizam o mundano. Por outro lado, o advento natalício, proporciona-nos períodos de reflexão que, ajudam a encurtar distâncias e aligeirar o fardo nostálgico inerente aos constrangimentos da ausência prolongada do país natal. É neste carrocel , que, a vagabundagem espiritual divorcia-se das algemas de qualquer estrutura física e compatibiliza-nos de forma sintónica, com um tempo, espaço, cultura e política, momentaneamente distante, mas suficientemente perto e real, para não permitir fugas ou ausências, indiciadoras da inacção individual e/ou colectiva, susceptível de ajudar a promover mudanças no nosso país. É neste contexto, que, releio o trabalho jornalístico do JON LEE ANDERSON, sobre S.Tomé e Príncipe, saído no “THE NEW YORKER” no Outubro passado. No referido trabalho, o jornalista em causa, refere que, num dia, estando FRADIQUE DE MENEZES mostrando-lhe a sede dos seus negócios de cacau, disparou com alguma tristeza : “ O ano passado, eu tinha uma boa vida, ganhava dinheiro, tinha meninas e festas, e vieram os TROVOADAS perguntarem-me se eu gostava de ser presidente, e aqui estou eu ! “ A frase, aparentemente inofensiva, revestida de autenticidade, embora com grande ingenuidade ao nível de forma e conteúdo político, revela-nos a essência da “praxis política” na nossa Terra, e , as dificuldades que, tendem a eternizar-se, relativamente à passagem de testemunho geracional dos diversos actores políticos, sobretudo num contexto marcadamente vincado, de forte personalização da vida política. O país vive uma crise de valores decorrente da sua situação económica e social, com repercussões ao nível dos partidos políticos nacionais, sendo esta última mais visível, porque, também existe uma crise de afirmação de projectos pessoais de poder, que, sempre existiu no nosso país. O reforço do registo “DISPIDI LONGԔ de MIGUEL e PINTO, não comportando ambições em termos de projectos políticos de natureza pessoal, é fortemente condicionado pelas preferências, escolhas, emancipação e carisma, dos substitutos que, cada um deles adoptou ou venha a adoptar, e pela dinâmica política e social no terreno. As preferências não trazem mal nenhum ao mundo porque não ultrapassam o nível do julgamento; as escolhas, pelo contrário, concretizam-se em actos, mediante uma pluralidade de possibilidades. Neste contexto, MIGUEL criou, preparou e engordou alguns falcões e papagaios que, actualmente proliferam no céu do país. Alguns falcões engordaram tanto, ao ponto de condicionarem a manutenção e crescimento do reino MIGUELISTA. Têm registos de voos mais ou menos rasteiros, condicionando a criação de pintos no quintal, que, acabam por enfurecer o seu criador. Os papagaios, aprenderam a falar tão depressa e bem, com uma habilidade desproporcionada, que, hoje constituem registos incomodativos da corte. Num momento particularmente complexo da nossa história, MIGUEL preferiu e escolheu FRADIQUE DE MENEZES, perante estupefacção e incredulidade do próprio e da generalidade da nobreza. Este, não hesitou em tratar o pai a soco, logo após a glorificação eleitoral. MIGUEL, eficiente e discreto, qual “cobra preta” ensaia o seu “passô” num clima de combate invisível com o filho bastardo, despido de artilharia convencional . Por isso, os ataques são telecomandados, disfarçados e com grande carga mortífera . É uma tarefa que requer paciência, passos seguros e milimetricamente escolhidos, embora possam ser assombrados pelas oscilações de conjuntura política, aqui e acolá desfavorável, pela dispersão de interesses pessoais e políticos dos falcões e papagaios que criou e pela oportunidade rara de desforra que PINTO espera concretizar. PINTO, condicionado em termos tácticos, espera e prepara cirurgicamente a “emancipação” política da sua “FLORIPES”, num contexto de alguma dificuldade, designadamente, a hipotética pulverização de várias correntes e/ou projectos no seio do seu partido e constrangimentos de natureza temporal, económica e política que, dificultam e/ou minimizam o brilho e eficiência do executivo governamental. Na corte existe cumplicidade incerta, registos de traições, inveja e ciúmes, que, podem contribuir para desmobilizar fiéis, outrora guerreiros temíveis nos campos de batalha. Além disso, PINTO espera tirar partido, do desgaste político do seu arqui-inimigo, decorrente do combate que este trava de forma silenciosa e discreta com FRADIQUE DE MENEZES. Nos próximos tempos o país precisa de lideranças, que adoptem um espírito claro de serviço, e um estilo participativo, empreendedor, motivador e sobretudo mobilizador. Por parte dos actores políticos, não deve haver lugar para arrependimentos, desculpabilizadores de fracassos sucessivos, decorrentes da incompatibilidade entre a vida privada e política; manifestações de abandono do barco, e, fuga para frente, como resultado da ausência de um projecto coerente e sustentado para o desenvolvimento do país. As escolhas de PINTO e MIGUEL – é disto que se trata infelizmente – quaisquer que forem, não devem continuar a espera de uma segunda, terceira ou quarta oportunidade, para causarem boa impressão, sobretudo porque o país continua pobre, com uma democracia ainda embrionária, carente de reformas estruturais e de inauguração de hábitos e posturas que dignifiquem o exercício da política e minimize o divórcio entre a classe política e a sociedade civil. Infelizmente, ainda há receitas que tendem a prevalecer, comportamentos e tiques anacrónicos que sobrevivem, inauguração de posturas e discursos que assustam. Até há pouco tempo, nos momentos eleitorais, era norma o recurso aos bens materiais e financeiros por parte dos partidos políticos, para maximização dos seus objectivos, transformando ciclicamente os actos eleitorais, em oportunidades raras de negócios para a generalidade dos Sãotomenses . Momentaneamente, tendo diminuindo as fontes de financiamento – externa e interna – que suportavam e alimentavam esta prática, a tendência será, adaptar e reajustar a fórmula, aos constrangimentos supracitados. Neste contexto, a nossa política, tem-se transformando paulatinamente em autênticos espectáculos, onde alguns dos seus principais comediantes, desempenham , com não rara frequência, uma autêntica farsa . Que relação de coerência ou racionalidade, por exemplo, existe entre o slogan “POR AMOR À TERRA “ e aquela frase assassina, reveladora de arrependimento, proferida por FRADIQUE DE MENEZES, ao jornalista JON LEE ANDERSON ? Qual é o objectivo político relevante, inerente à dignificação da política e instituições do país, que, se quer atingir, quando se insiste e reitera a intenção de garantia de felicidade a todos os Sãotomenses , num contexto temporal de dois anos ? O discurso político deixou de ser invariavelmente, a expressão de verdade, mas de ilusão, com fugas sistemáticas para o desenvolvimento da demagogia, baseada na maior parte das vezes, na utilização da emotividade das massas, cujas expressões mais evidentes, foram os comícios da presidência aberta, decorrente dos conflitos inerentes à revisão constitucional e mais recentemente, a organização e conclusões do Congresso do partido M.D.F.M . O Congresso em causa, que deveria inaugurar um discurso político dialogal, racional e responsável, optou pela prestidigitação e dissimulação, com períodos de autêntico show por parte de Sua Excelência Senhor Presidente da República, qual pavão, deslumbrou os delegados com entrada e pose que não se vislumbrava naquelas paragens. Tudo feito e pensado milimetricamente – com delegados uniformemente vestidos – com intenção subjacente de construção de um universo imaginário que, distrai as mentes menos avisadas e ajuda a adormecer as consciências nas correntes do rio “passô” . A única conclusão decorrente da realização do referido congresso, sistematicamente publicitada, é a intenção de uma hipotética revisão constitucional rumo ao Presidencialismo. Não se conhece o modelo a seguir para conseguir tal desiderato, nem tão pouco a política de aliança inter-patidária que a suporte, susceptível de minimizar conflitos institucionais estéreis. Não se vislumbra das conclusões do referido Congresso, linhas de força programática, ancoradoras da identidade do partido nem tão pouco, um pensamento, ainda que abstrato, sobre a política externa e de defesa para o país, designadamente a integração regional, modelo de organização das Forças Armadas Nacionais e/ou um esboço embrionário de desenvolvimento de um projecto geoestratégico para o país. “Por amor ao petróleo”, torna-se desnecessário percorrer tal caminho. Espero que o espirro em causa, não contamine os outros partidos que já têm os seus Congressos marcados para um contexto temporal próximo. De facto, temos que mudar de vida, relativamente à organização dos partidos políticos. Existem partidos que concorrem às eleições sem terem assegurado as condições próprias para executar as acções inerentes à delegação do poder e isto constitui uma fraude, porque, não está garantido que, os eleitores, ao fazerem essa delegação tenham inteiro conhecimento dessa deficiência. Daí a importância dos militantes partidários e da própria comunicação social, reforçando o debate de ideias no interior dos partidos – cuja expressão máxima são os Congressos – e nos momentos eleitorais. É bom, que, todos tenhamos a noção de que, a importância do Estado só é um factor de poder, quando se tem uma noção precisa e realizável do que se quer fazer com esse instrumento. Ou os partidos políticos têm um programa de qualidade para orientar as funções de Estado, ou é inevitável o agravamento dos problemas políticos que ai se originam, cujo exemplo se pode encontrar na génese dos problemas inerentes à recente revisão constitucional.


Cassandrex


15 / 12 / 02

publicado por adelino às 23:03
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. A Morte de Chico Paleio

. Bons e Maus Chefes de Coz...

. A Ilusão do Poder de Sãm ...

. O Festim Carnicento dos “...

. O Presunto dos Bufados

. Branco mas Pouco Transpar...

. O Curandeiro, o Médico e ...

. Um Príncipe Quase-Perfeit...

. Mexer no Sistema para Mud...

. Os Aprendizes de Feiticei...

.arquivos

. Janeiro 2011

. Setembro 2010

. Fevereiro 2010

. Agosto 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Janeiro 2008

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Julho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Janeiro 2005

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds