Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005

"Reaprender a chorar"

Quando era miúdo, em plena adolescência, lembro-me perfeitamente de um acontecimento familiar dramático que, mudou radicalmente a concepção, que até então, eu tinha da vida, do respeito pelos outros e da própria compreensão da resposta sentimental humana, aos vários tipos de dramas que, acontecem diariamente. Foi a morte de uma tia minha. A estrutura abandonada de um quilalá1 inacabado, o vão frágil de uma pequena escada da casa, as janelas, o quintal (já abarrotado de pessoas de todas as origens) a cozinha improvisada, tudo serviu para suportar o peso das lágrimas e do chorrilho ensurdecedor em forma de música que, saía daquelas gargantas cansadas de vida, e, acabavam por corromper as almas dos presentes, mais ou menos distantes do local em causa. Suavemente, esta sopa de lágrimas e quidarê, foi dando lugar aos gestos de solidariedade, cooperação e conforto menos espontâneos. De repente, já não havia lugar lá em casa e no quintal, para colocar tanta iguaria com origem tão diversa e genuína. Ligeiramente encostado a um coqueiro, que, transpirava até as fibras na parte inferior do tronco, como que, contaminado pela dureza do desastre emocional colectivo que acontecia, não consegui verter uma única lágrima, embora amargurado até ao tutano. Na altura, tive dificuldades em compreender e aceitar, os caprichos de natureza psicoorgânica pessoal, que, me limitava em termos de expressão emocional, compatível com a manifestação da generalidade dos presentes, deixando-me parcialmente desnudado, perante uma “tribo de sensíveis e iguais”. Naquele momento, eu era o insensível de serviço lá em casa. Aquelas pessoas choravam desalmadamente e, no entanto, as lágrimas fugiam de mim como Diabo da cruz. Estava e sentia-me só perante o mundo. Mas, tinha a certeza que, compreendiam e interpretavam favoravelmente o meu silêncio, a minha angústia e a minha verdade, manifestada naquela massa corporal de um adolescente, regularmente traquinas; mas, momentaneamente frágil, vincadamente marcado nos contornos indisfarçáveis de expressão facial que, o tempo congelou o sorriso. Juro que, desde aquela altura, “aprendi a chorar” e a minha capacidade de indignação perante os problemas e dificuldades dos outros, nunca mais foi a mesma. Tendo crescido assim, neste ambiente profundamente marcado pela cooperação e solidariedade entre as pessoas, habituei-me – e penso que todos os da minha geração e gerações anteriores – à ideia de um país identicamente cooperativo e solidário. Infelizmente, o tempo encarregou-se de me provar o contrário. Esta retrospecção vem a propósito dos acontecimentos recentes que, contribuíram para o estilhaçamento da nossa auto-estima. O primeiro-ministro Cabo-Verdiano, em visita de trabalho à S.Tomé e Príncipe, por ocasião de mais uma cimeira da CPLP, emocionou-se profundamente, ao verificar as condições de miserabilismo extremo, em que vive, uma parte considerável dos seus concidadãos naquelas ilhas, ao ponto de, não conseguir expressar qualquer palavra, quando questionado por um jornalista local. Passada a “hecatombe” emocional, o primeiro-ministro em causa e toda a sua “entourage” governamental, não têm poupado nos esforços, imaginação e diplomacia, envolvendo países terceiros, ONG`s e quadros Cabo-Verdianos, no sentido de, mais rapidamente possível, alterarem a situação de vida daquelas pessoas, reiterando juras, de que, se trata de um desastre humanitário. Consta mesmo, que, um jurista Cabo-verdiano, está a estudar a possibilidade de processar judicialmente o Estado Português, pelo seu contributo – directo ou indirecto – no caso. Aquele mesmo miserabilismo indescritível que, emocionou profundamente o primeiro-ministro Cabo-Verdiano, e, existe espalhado um pouco por todo o país, extensível à grupos variados da comunidade autóctone, não fora suficiente, até então, para emocionar de forma tão radical os decisores locais. Não me atrevo a especular muito e em abstracto sobre uma matéria tão complexa, mas, parece-me compreensível que, as emoções dos seres humanos, possam ser diferentes de indivíduo para indivíduo, e de igual modo também, as suas percepções dos problemas, expectativas, comportamentos e ambições. Acredito que, a interiorização e operacionalização de conceitos como a pobreza, solidariedade, cooperação e mesmo prática democrática, com conteúdos diferenciados para os decisores locais dos dois países, fruto dos percursos histórico-culturais, sociais e económicos, também diferenciados, tenham contribuído para a expressão diferenciada de tais comportamentos e atitudes. Só assim, compreende-se que, sob ovação dos decisores nacionais, segmentos significativos de populações, estejam condenadas aos contornos de uma dieta alimentar, baseada em banana, coco, pão, jaca e búzio, sem educação condigna, cuidados básicos de saúde, água e saneamento, mas, o quadro em causa, seja suficiente para fazer chorar um primeiro-ministro de um outro país. Desta vez, embora num contexto dramático completamente diferenciado, o insensível de serviço foi o primeiro-ministro Cabo-Verdiano que, angustiado, triste e só, comportou-se como um “menino mimado”, em antítese, ao espalhafato dos militantes do “clube de escrúpulo nacional”. Compreende-se desta forma, as razões para a diferença de desenvolvimento, capacidade de indignação perante os problemas e aprofundamento da democracia, existente entre os dois países. De quantos “meninos mimados” precisaríamos nós neste momento? As lágrimas sentem vergonha da nossa hilariante e inconsequente capacidade de indignação e refugiam-se noutras paragens. Por isso, não choramos perante dramas desta envergadura, e, as nossas ambições e expectativas perante os outros e o próprio país, são baixas. Ironicamente, menos de três meses após este gesto de denúncia pública do caso e assunção pessoal e institucional por parte do primeiro-ministro Cabo-Verdiano, de que, não abdicava de nenhum expediente para a mudança da situação dos cidadãos Cabo-Verdianos em S.Tomé e Príncipe, o país surpreende o mundo e uma parte dos seus cidadãos menos atentos, com uma cascata enorme de escândalos indiciadores da corrupção no país, tendo o Presidente do Tribunal de Contas declarado, que, os casos até então relatados, correspondem a uma gota de água no oceano. O primeiro-ministro Cabo-verdiano deve estar agora a rir-se, porque, a sua insensibilidade, depressa abriu caminhos para a implementação da transparência e honestidade como bandeira para a governação do país. Não bastando esta sensação de humilhação colectiva, soube recentemente através dos noticiários da RTP África que, Cabo-Verde está a formar os oficiais paramilitares Angolanos, país que, como se sabe, saiu recentemente de um contexto de guerra civil e tenta reerguer-se sob alicerces sólidos de um verdadeiro Estado de direito democrático, não descurando neste caso particular, dos contornos de formação das suas forças policiais, compatíveis com este desiderato. Compreende-se esta preocupação e expediente. No entanto, e, por paradoxo que pareça, as nossas forças policias têm sido formadas em Angola. Angola está definitivamente a organizar-se para a paz; nós estamos a preparar para a guerra. Temos todos de reaprender a chorar!


Cassandrex


 Setembro de 2004


 


Quilalá1 – nome dado a uma pequena cubata no crioulo do Príncipe, do género Vamplegá no crioulo de S.Tomé.

publicado por adelino às 23:58
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