Sábado, 16 de Abril de 2005

Carta ao General Embaixador

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Fonte: Cena Lusófona



Quinze de Agosto de 1972! Primeira alvorada do ano em que o choro da corneta desafia o cacarejar teimoso e fiel da maioria dos quintais. Aqui e ali, nota-se uma competição sonora que antecipa o cenário vespertino de guerra, entre mouros e cristãos, que, há-de sacudir e emocionar toda a ilha. Hoje, a música dos grilos, tendencialmente ciumenta, escondidos na multiplicidade de pteridófitas regadas com o orvalho, que pululam um pouco por todo o lado, de forma, tamanho e lâminas diversas, deixou de ter importância fundamental para as crianças. O que de facto encanta, são os passos cadenciados e apressados do solitário “general embaixador” suportado por uma corneta e tambor que fumegam, arrastando neste calor, bandos de gaiatos que, mais parecem “pixinhos” desgovernados perante múltiplas armadilhas de panos.
Eu era um destes gaiatos meu caro “general embaixador” que te acompanhavam naquele ritual nas avenidas e ruas descalças da nossa pequena cidade. Vi-te recolher sucessivamente, um, dois, três, quatro e cinco pares, e, aparentemente desconsolado, entregar a corneta e bandeira ao “Orangel”. Ainda lembro-me do estilo, argúcia, dedicação, empenho e prontidão, com que defendias as ideias e observações do monarca Almirante, deixando a generalidade dos soldados e capitães boquiabertos e entontecidos. Afinal de contas eras um “general embaixador”!!!
Lembro-me perfeitamente de teres cumprido com desassombro as tuas obrigações na “primeira embaixada”, junto do castelo inimigo, num contexto de prognóstico generalizado de prisão ou morte. Não só escapaste nesta e noutras batalhas, como foste sucessivamente promovido pelo monarca, perante estupefacção dos cristãos, mouros e generalidade dos bobos. Assim, trepando de degrau em degrau no interior do castelo e sem qualquer estardalhaço, chegaste ao cargo de primeiro-ministro. Há quem vaticine que, do mesmo jeito, sem levantar ondas, com paciência, humildade e diplomacia ainda intactos, inerente ao desempenho do cargo de “general embaixador”, chegarás ao cargo de Presidente da República. Não é impossível mas, será difícil, pois falta a indispensável corneta e o tambor para mobilização de soldados fiéis. Além disso, os níveis agressivos de competição no interior da corte, prometem um espectáculo dantesco nos próximos tempos, e a tua reiterada teimosia em continuar a vestir a pele de “general embaixador”, já lá vão trinta e dois anos, sendo no entanto primeiro-ministro, fragilizam as hipóteses de sucesso no decurso da viagem.
O Presidente da República vindo de outras terras, não teve pejo em anunciar ao povo, que, um aliado circunstancial, sob sua influência e poder, apresta-se para conceder mais um avultado empréstimo ao país, para que o mesmo possa fazer face aos constrangimentos de natureza social e económica prevalecente, sendo a disponibilidade em causa, extensível aos contornos de vontade e interesse, na abertura de uma missão diplomática no país. O mesmo actor político e institucional, não hesitou em afirmar publicamente que, a alavanca estratégica para o desenvolvimento do país, deve ser a aposta no sector primário, em detrimento de medidas avulsas sem retorno e descontextualizadas do modelo de desenvolvimento que de facto serve o país.
Em contraposição, não descurando o teu papel de “general embaixador” que, mais se assemelha ao de tesoureiro do reino, e sobretudo para o sossego da coroa, tens percorrido o império todo, num espalhafato mediático sem precedentes, levando novas, e distribuindo mantimentos, alfaias de culto e muito dinheiro aos pobres. Neste passeio interno mediático-obsessivo, não tens perdido a oportunidade de recomendar aos pobres em causa que, regressem à roça, não descurando nos teus sermões aos coitadinhos, dissertações no âmbito da psicologia cultural ou individual, sobre a evolução e conceito de pobreza entre nós. Ou seja, os tiques de conservadorismo e lealdade imperial, não te deixam despir a pele de “general embaixador” que sempre foste, sendo momentaneamente primeiro-ministro. Daí a confusão de papéis e funções no reino: o Senhor Presidente da República é cada vez mais, primeiro-ministro; da mesma forma que desempenhas cada vez melhor, o teu papel de “general embaixador moderno”.
Meu caro “general embaixador”, não conheço nenhum país do mundo que resolveu o seu problema de abando escolar, ou melhorou de forma sustentada a sua taxa de escolarização, oferecendo dinheiro de forma avulsa aos pais ou encarregados de educação, para que estes ajudassem a estimular a mudança de hábitos dos respectivos discentes e com tal contribuir estatisticamente, para o sucesso escolar nacional. As causas da baixa escolarização e do abandono escolar no nosso país, são estruturais e múltiplas, e, perspectivar a análise em causa de forma tão simples, avulsa e leviana, desculpabilizadora da própria insuficiência e negligência do Estado em todo o processo, parece-me um flagrante despropósito. As estratégias para o combate ao abandono escolar – entendida como perda de efectivos discentes ao longo do percurso escolar – não pode nem deve incidir exclusivamente sob condicionalismos motivacionais de natureza estatística. Tem que ser muito mais do que isso e constituir um desígnio nacional. É urgente recuperar entre nós, a ideia da Escola como espaço onde os nossos jovens, sem excepção, tenham acesso a uma formação comum, com objectivos de socialização e também de aquisição de competências essenciais, expressa em conteúdos programáticos pertinentes, que, permitam o aprofundamento da democracia na nossa Terra, a gestão responsável e crítica dos nossos recursos naturais e consequentemente, a construção de um país mais próspero, justo e equilibrado.
Meu caro “general embaixador,” tudo isto não se faz somente, com medidas avulsas de apoio financeiro às mães carenciadas (que bem precisam!) num espectáculo mediático de gratificação aos súbditos, transformando a acção em causa, aparentemente meritória, num precedente perigoso e esbanjador dos fundos públicos, sem resultados sociais palpáveis. Além disso, os nossos problemas sociais de hoje, decorrem em grande medida, do menosprezo, falta de orientação e coordenação do sector educativo, num passado recente na nossa Terra. Ou seja, os problemas diagnosticados hoje, reflectem as insuficiências políticas de ontem. Por isso, para além de combater ou minimizar os constrangimentos sociais existentes, temos que romper com o ciclo titubeante, avulso, trapalhão e sem resultados, de políticas adoptadas no país. Sendo assim meu caro “general embaixador”, não fique preso aos contornos de um passado claustrofóbico, legitimador anacrónico de linhagens que entristece-nos e transforma o país num cemitério de súbditos. É o momento de pegar em três ou quatro ideias (elaboração e execução de um plano de combate e prevenção da corrupção no país, análise, avaliação e reforma do nosso Sistema Educativo, melhoramento do rendimento das famílias Sãotomenses e aprofundamento da democracia no país) preparar tropas, transformá-las em desígnios colectivos, arregimentar consciências, e marchar…marchar. Sê primeiro-ministro meu caro “general embaixador”!!! Não haverá tão cedo, uma terceira oportunidade para causar boa impressão.Com os melhores cumprimentos, subscrevo com a mais alta consideração.





publicado por adelino às 00:08
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