Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

Banho de Conóbia e a miopia Americana

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Autor da Foto: Jonathan Baillie





Lembro-me perfeitamente de, quando criança, contemplar demoradamente nos beirais próximos dos rios, ou nas margens dos mesmos, a vaidade, preguiça e subtileza higiénica das conóbias. Sendo aves com um enquadramento cromático inconfundível, sempre despertaram a minha curiosidade e preferência enquanto criança, em detrimento do espectáculo sazonal das andorinhas que enegreciam momentaneamente os céus da minha cidade, ou irrequietude dos melros nos ramos secos de algumas árvores. Esta curiosidade e interesse, relativamente às conóbias, ficou irremediavelmente amplificada na minha adolescência, quando descobri – como qualquer adolescente Sãotomense – as crenças relativas às potencialidades do sangue e coração da conóbia e o sucesso com o sexo oposto. Juro que esta fantasia, acompanhou-me durante parte significativa da minha adolescência, e, embora tenha perseguido dezenas de conóbias, nunca logrei matar uma, com a minha afinada fisga. Por outro lado, sempre me arrepiou a subtileza higiénica da conóbia. Elegante e vaidosa nos gestos, embora preguiçosa, ela reduz as suas obrigações higiénicas, ao mergulho instantâneo nas águas límpidas dos rios, seguido de um estremecimento que, a ajuda a libertar-se da água nas plumagens. Tudo isto é feito com uma ligeireza que, embora autêntica, não deixa de arrepiar. É o “banho de conóbia!”
A nossa democracia tem particularidades, tiques e registos que, tendem a cristalizar-se, e, transformaram-na num autêntico “banho de conóbia”, sistematicamente enfraquecida com espectáculos de estremecimentos, traduzidos em crises, cujo hipocentro é a Presidência da República. Tal como a conóbia simula que toma banho; nós fingimos materializar através das instituições democráticas e participação cívica tímida, o nosso estatuto democrático, constitucionalmente vigente. Este fingimento, tem como consequências práticas, um conjunto de insuficiências que, directa ou indirectamente, contribuem para mascarar a democracia e afectar a vida das nossas populações, designadamente: a crise crónica dos partidos políticos; a ausência de separação de poderes; o nível de corrupção no país; a ineficácia organizativa da nossa administração pública; a parcialidade e inércia do nosso sistema judiciário; pouca ou nula participação cívica; tiques de censura ainda prevalecentes, limitativos da liberdade de expressão e opinião e a extensão das desigualdades económicas e sociais no país que, episodicamente levam à desordem social. Todas estas questões específicas são muito mais importantes que o abstraccionismo formal da “democracia,” repetidamente propalado pelos diversos agentes políticos no país, sem utilidade prática. Não estando reunidas estas condições básicas de suporte à democratização do país, percebe-se mal a miopia Americana que, sobrevaloriza os seus interesses geoestratégicos na região e no próprio país, em detrimento de um efectivo apoio e pressão às reformas no mesmo, contribuindo com a atitude em causa, para dar músculos aos projectos ou pseudo-projectos pessoais de poder que, deformam a essência e objectivos da nossa democracia. Tudo isto é pouco perceptível ainda, quando, a agenda de política externa Norte Americana, é suportada por neoconservadores, cujas principais doutrinas e ideais, englobam entre outras prioridades, a promoção da democracia e valores democráticos além fronteiras. Se o desejo de implementação de um projecto, de construção de uma base ou porto de abrigo Americano no nosso contexto insular, é compreensível à luz da supracitada doutrina e ideais, como forma de prevenir a emergência de conflitos na região, eventualmente hostis aos seus interesses, compreende-se mal, a timidez ou renúncia dos E.U.A no que se concerne à pressão, rumo ao aprofundamento destes valores e princípios políticos democráticos, de promoção da democracia em S.Tomé e Príncipe, como em qualquer outra latitude, sobretudo num contexto internacional unipolar.
Eu sei que no interior de um ou outro aparelho partidário nacional e no íntimo de alguns “predadores” insaciáveis, esta ideia parece absurda e contra natura, mas, os últimos acontecimentos relacionados com a crise governativa no país, bem como os contornos utilizados para a sua minimização ou resolução, reforçam a minha convicção de que, os E.U.A devem intervir, material e politicamente, para a mudança de rumo e aprofundamento da democracia em S.Tomé e Príncipe, caso contrário, os interesses dos E.U.A no país e na região, podem ser confundidos com os interesses de meia dúzia de “predadores” nacionais, e isto não será bom nem para os E.U.A nem para o povo de S.Tomé e Príncipe. Para além disso, a teia de interesses pessoais e privados, decorrentes da temática petróleo e as condições estruturais de natureza social e económica do país, maximizam os propósitos de tais “predadores”, na união de esforços, para atrofiar a essência e os mecanismos de aprofundamento democrático no nosso país, tornando a tarefa em causa espinhosa e hérculea para a empreedermos sozinhos e de forma voluntária. Os acontecimentos da crise governativa e institucional recente, reforçam as preocupações e convicção supracitadas, na medida que, é angustiante saber e constatar, que, pessoas com imensas responsabilidades no país, bem informadas, aparentemente preparadas para a missão de defesa dos interesses do país, como é o caso de Sua Excelência Senhor Presidente da República, continuarem a tomar decisões, não na base dos factos, mas; na base de preconceitos, ressentimentos, ou até por vezes, com objectivo de defesa de interesses político-partidários mesquinhos, sem tirar as devidas consequências políticas das suas atitudes. Interessa-me pouco, ou mesmo nada, saber se, na crise governativa e institucional recente, foi o Senhor Presidente da República, a Senhora Primeira-Ministra ou os Senhores ex-Ministros dos Recursos Naturais e Negócios Estrangeiros, quem esteve a mentir, ou ainda, preocupar-me sobre conteúdos de dissertações extemporâneas inerentes aos riscos que o país corre, decorrentes da anulação unilateral do contrato com a empresa Energem Petroleum/Diamondworks. Interessa-me sim, reflectir sobre factos, para os quais não houve consequências políticas adequadas e oportunas, e, continuam a contribuir para minar a credibilidade das instituições e dos políticos nacionais. É ou não verdade, que:

• nunca o país ouvira falar nem vira mencionado em nenhum jornal nacional, anteriormente à assinatura dos respectivos contratos, os nomes das empresas ERHC/Chrome , TDN e mais recentemente Energem Petroleum/Diamondworks, e de repente, toda a gente ficou a saber de um dia para o outro, que, o governo Sãotomense assinara contratos ruinosos com as respectivas empresas, tendo com isso que anular os contratos em causa, minando assim as condições futuras de negociações e credibilização das instituições do país;

• as negociações e consequente assinatura do contrato com a empresa Energem Petroleum/Diamondworks, deviam ser precedidas de um concurso público, posteriormente à discussão na Assembleia Nacional e consequente aprovação e promulgação, da Lei de Gestão dos Recursos Petrolíferos que, se encontra em fase de elaboração;

• a importância do evento – assinatura do contrato com a empresa Energem Petroleum/Diamondworks - e impacto real da iniciativa para o país em termos de sensibilização da população e credibilização das instituições, requereria maior transparência e maior intervenção da Senhora Primeira-Ministra, em detrimento do protagonismo exagerado do Senhor Ministro dos Recursos Naturais na tarefa em causa;

• o Senhor Presidente da República garantiu em entrevista pública , desenvolver todos os esforços no sentido de maximizar a transparência no dossiê petróleo e com isto, minimizar-nos da contaminação com os problemas existentes noutras latitudes;

• a frequência de crises governativas e institucionais no país, aumentou extraordinariamente, desde a chegada do Senhor Presidente da República, Fradique de Menezes, ao palácio cor de rosa, tendo em menos de metade do seu mandato Presidencial que, exonerar dois Primeiros-Ministros, resistir a um golpe de Estado e a várias crises institucionais por si provocadas – consciente ou inconscientemente.

O panorama político e institucional no país não é nada bom, mesmo após a remodelação governamental recente, fruto da crise instalada, e, um Presidente da República aparentemente susceptível a influências, ou particularmente desejoso em proteger uma qualquer concepção específica ou interesse particular, torna-se um elemento manipulável por uns interesses partidários em detrimento dos outros, fazendo perigar os esforços de aprofundamento da democracia no país e a essência e objectivos do próprio Estado. Sem Estado, não haverá cidadania e sem cidadania não haverá democracia no país.
Resta-nos evitar a extinção das conóbias no país, num contexto, onde os rios que suportam os espectáculos dos seus banhos estão a desaparecer. A mesquinhez, malvadez e masoquismo que, tende a cristalizar no interior de algumas mentes de que “ quanto pior melhor” e de que, “de crise em crise até a vitória final”, tem contribuído para a decadência e degradação da moral e do nosso sentimento patriótico. O momento é de luta, coragem e determinação e exige esforços de todos.









publicado por adelino às 21:15
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