Sábado, 11 de Setembro de 2010

Bons e Maus Chefes de Cozinha

 

Os políticos são como os cozinheiros e ninguém se transforma num óptimo cozinheiro adquirindo, em primeiro lugar, noções teóricas sobre a gastronomia para depois ensaiar, no referido ofício, a concepção e preparação de pratos para a freguesia. É óbvio que isto não dá bons resultados.

Da mesma forma, se é verdade que a manutenção e teimosia numa dieta alimentar, com os mesmos ingredientes e vícios, a mesma rotina organizacional, metodológica e higiénica, afugenta os fregueses; não é menos verdade que a mistura avulsa de traços ou padrões culinários, de proveniência ou latitude diversa, desprezando as especificidades originais, em presença, pode contribuir para desmobilizar os apreciadores dos respectivos registos culinários.

Foi um bocado isto que aconteceu nas recentes eleições legislativas em S.Tomé e Príncipe.

Enquanto Patrice Trovoada, despedido, sem honra nem glória, da cozinha alheia, embalado com os efeitos positivos decorrentes da polarização conseguida com Fradique de Menezes, nas anteriores eleições presidenciais, proporcionada pelo próprio MLSTP/PSD, teve tempo e experiência acumulada para ir preparando, simultaneamente, o seu projecto culinário e prato que se chamava ADI, o MLSTP/PSD e o PCD, sob as respectivas direcções, tentavam, em primeiro lugar, misturar e construir uma ideia teórica para ementa que, aparentemente, pretendiam desprezando a urgência daqueles que esperavam pelo referido prato. É óbvio, que estes esqueceram-se, que, em política como na cozinha, o projecto culinário e o prato têm de surgir ao mesmo tempo sobretudo num contexto socioeconómico em desesperança acelerada e com uma dieta rígida de búzio, banana e fruta-pão.

Além disso, um projecto culinário com aquelas características incluindo o MLSTP/PSD e o PCD, seria equivalente a tentativa experimental de misturar Calulú com Molho no Fogo. Quem estaria disposto a comer uma ementa que, de forma avulsa, mistura estes dois projectos culinários totalmente distintos, na sua génese, sem indícios de preocupação, por parte dos respectivos proponentes, em explicar, detalhadamente, às pessoas a necessidade estratégica e interesse nacional conjuntural existente na sua confecção?

Pois é, é ai que começa a actual “mudança” que se deu no país e que alguns, por autismo ou incoerência, não querem ver ou admitir.

Todos sabemos em que condições, política, económica e social, emerge o PCD-GR no contexto nacional. Não tendo, momentaneamente, um quadro programático e ideológico completamente distinto do actual MLSTP/PSD, o PCD-GR aparece, em 1990, no processo de transição, do antigo regime para o actual, transportando consigo bandeiras e valores democráticos antitéticos ao statu quo prevalecente na altura, que condenou o MLSTP/PSD à uma travessia do deserto decorrente dos resultados das eleições legislativas, então realizadas. O PCD-GR, para além de capitalizar, na altura, o apoio daqueles que foram marginalizados pela rede redistributiva do anterior regime, não se coibiu de autoproclamar, em contraposição ao MLSTP/PSD, defensor de bandeiras como pluralismo democrático, transparência governativa, separação e independência dos poderes e avesso aos totalitarismos de qualquer espécie. Ora, as sucessivas direcções do MLSTP/PSD, incluindo a actual, sempre se manifestaram, maus chefes de cozinha, nestas matérias, não obstante as juras de “mudança” programática e ideológica, durante o percurso histórico em causa. Para tal, basta constatar a atitude da ex-ministra da defesa e justiça, do anterior governo, relativamente ao Presidente do Governo Regional do Príncipe. Qualquer bom chefe de cozinha demitiria tal adjunta de chefe de cozinha perante um espectáculo, tão degradante, do ponto de vista de afirmação e aprofundamento da nossa democracia. No entanto, não foi isto que aconteceu perante a cumplicidade orgânica e institucional do próprio PCD.

Tanto em 1996, como agora, momentos em que o MLSTP/PSD e o PCD estiveram em contextos de coligação governamental, para além de não se constatar, qualquer atenuação dos níveis alarmantes de pobreza no país, não se verifica, também, esboço e aplicação de políticas públicas que poderiam contribuir para o aprofundamento da nossa democracia, enquadramento legislativo e/ou organizacional, do aparelho do Estado, que melhorasse a transparência governativa e contribuísse para o aprofundamento da separação e independência dos poderes. Ora, estas últimas são bandeiras que suportaram a essência estratégica fundacional do PCD-GR e constituem, como tal, o seu património genético que deu corpo e estrutura mobilizadora, em 1991, aos propósitos de “mudança” política, a montante, reivindicada pelo referido partido, posteriormente concretizada.  Neste contexto temporal concreto, a direcção política do PCD-GR comportou-se como bom chefe de cozinha.

A política é mesmo assim, é acção, e não se limita aos contornos de mera administração ou defesa, mas, sim, configuração e pressentimento do futuro, primeiro do que os outros. Um bom político, como um bom chefe de cozinha, deve ter em vista, e em primeiro lugar, oportunidades que deve metodicamente aproveitar e não compêndios de filosofia política ou enciclopédias culinárias que deva ler, antecipadamente, que suportam, posteriormente, as suas decisões políticas ou projectos culinários. Foi exactamente isso que o PCD fez em 1991 que o país acolheu como um projecto de “mudança” e, também, foi isto que o ADI, fez agora, apropriando-se politicamente dos argumentos estratégicos fundacionais que suportaram, até então, a essência programática do PCD-GR e contribuíram para capitalizar apoios, sobretudo, junto dos jovens, e na base social originariamente conotada com o PCD-GR.

Interpretar esta onda actual do ADI, que varreu o país, não como um sinal de “mudança” comporta dois erros graves.

Em primeiro lugar, desvaloriza, consciente ou inconscientemente, o mesmo papel de “mudança” interpretado, realizado e reivindicado pelo próprio PCD-GR, em 1991, e parece-me injusto que assim seja tendo em conta a importância histórica do referido evento, e reduz a política aos contornos da “mudança” interpretada como uma realidade administrativa, de gestão ou acto reformador, resultante das consequências do instrumento da acção governativa.  Ora, a política não é isso, ou melhor, não é sobretudo isso. A racionalidade na política é o aproveitamento da oportunidade e Patrice Trovoada, agora, bem como, os líderes do PCD-GR, em 1991, foram suficientemente inteligentes, quais bons chefes de cozinha, para aproveitarem uma decepção, quase generalizada, que se vivia no país, nos respectivos contextos temporais, em processos que configuram ou configuraram “mudança” política.

Em segundo lugar, esta tese, tendencialmente difundida como paradigma justificativo e envergonhado, eventualmente minimizador das consequências políticas momentâneas decorrentes dos maus resultados eleitorais do MLSTP/PSD e PCD, pode encerrar consequências contrárias aos interesses dos respectivos partidos, num futuro próximo. Se no MLSTP/PSD o défice de democratização interna, problemas de natureza organizacional, bem como, a rede de conflitos internos, pelo controlo do partido, dificultam o seu crescimento em direcção às franjas específicas do nosso sistema social, como sejam os jovens; no PCD, o problema é um pouco mais complexo porque está relacionado com a própria identidade do partido singularmente entendida como serviço político prestado pelo mesmo que constitui a justificação social da sua existência e centro de expressão política racionalizada, bem como, o referido partido, constitui um concorrente na fórmula da distribuição do poder na nossa terra. É óbvio, que, se o ADI cresce, e muito, sob fundamentos identitários que suportam a essência ou código genético do PCD, estando aquele momentaneamente no governo e acorrentado aos condicionalismos do personalismo identitário que poderiam minimizar as suas ambições, estão criadas as condições para a diluição da importância do PCD no nosso sistema social se o ADI quiser e souber tirar partido disto. A identidade partidária, mesmo num sistema partidário sem grande carga ideológica, como o nosso, tem uma grande importância e efeito diferenciador interpartidário. Sendo assim, ou por isso mesmo, constitui um efeito condicionante das flutuações admissíveis nas posições e expressões de um partido quando reage às oportunidades que a evolução dos acontecimentos oferece. O PCD-GR, desde 1991, afastou-se muito, voluntária ou involuntariamente, do seu código genético. Se o PCD-GR se fez, em 1991, do ponto de vista identitário, promovendo a “mudança” em contraposição ao statu quo prevalecente que suportava a essência do MLSTP/PSD; o ADI robusteceu-se, agora, proclamando “mudança” sobre alicerces anacrónicos em que o MLSTP/PSD e o PCD se meteram de forma voluntária.

É no código genético do partido onde se conjugam a sua origem, as suas opções históricas, bem como, a especificidade do seu modo de representação de interesses sociais, que determina o espaço político concreto e/ou simbólico que o partido ocupa no sistema político. Daí, muitos cidadãos nacionais interpretarem este fenómeno eleitoral como “mudança”. Escamotear este facto, num exercício de puro autismo, inconsequente e contraproducente, é mau e redutor porque mina as condições para a reflexão, desejável e descomplexada, que tanto o MLSTP/PSD e o PCD têm de fazer, em verdadeiros congressos, onde possam discutir ideias e propostas políticas, e não em festas programadas para satisfação de vaidades inócuas ou arenas para sacrifício de bobos para tudo se manter na mesma.

Pinto da Costa, antigo e exímio chefe de cozinha, já avisou o seu partido das consequências inerentes ao acto de bloqueio do processo de “mudança” em curso. Para além do tacticismo eleitoral, em presença, ele sabe muito bem do que fala e, sobretudo, conhece profundamente o seu próprio partido.

Para mim, um simples e humilde cidadão, preocupa-me a qualidade do projecto e do prato que os nossos chefes de cozinha nos possam proporcionar. O MLSTP/PSD e o PCD podem e devem fazer muito mais pela qualidade da nossa cozinha. Por isso, quero muito mais do que búzio, banana e fruta-pão. O país merece mais do que isso!

 

A.C

publicado por adelino às 14:34
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