Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

O Presunto dos Bufados

Um amigo meu contara que, estando de férias, no país, há alguns anos, e numa normal e saudável troca de impressões com um ex-ministro, homem poderoso naquele contexto temporal concreto, questionara-o, de forma ingénua embora pertinente, relativamente às condições miseráveis em que vivia a maioria da população da nossa terra. O ministro em causa, sem quaisquer cerimónias ou titubeações, respondera-lhe que, passo a citar «…o povo só passa fome se quiser, pois, com tanto coco que existe no mato…».

Escuso-me a comentar tais afirmações, do então ministro, mas, são reveladoras do nosso infortúnio geracional relativamente aos bufados que nos cercam e teimam em transformar, todo o porco do nosso quintal, por mais magro que seja, num óptimo presunto, para satisfação dos seus belos prazeres pessoais, condenando-nos ao desprezo de continuar a comer coco. Deve ser esta a nossa dieta alimentar: coco e mais coco, de acordo com o desejo e vontade suprema dos bufados.

Os bufados são seres exóticos, faustosamente caracterizados com parafernálias de todo o tipo, anormalmente gordos nos traseiros, barriga e pescoço, suficientemente inteligentes para adoptarem o mimetismo ou camuflagem perante às adversidades e com grande capacidade de adaptação aos constrangimentos de todo o tipo.

Por isso mesmo, não morrem, renascem das cinzas, qual Fénix, e têm o supremo dom de transformar todo o porco, do nosso quintal, por mais magro que seja, num bom presunto, aumentando, assim, o tecido adiposo em zonas específicas do seu corpo. Mesmo gordos, aparecem e desaparecem com uma velocidade estonteante e, tudo isto, torna difícil a sua identificação. Têm muito medo da solidão, por isso, vivem constantemente em bandos, que se protegem mutuamente, o que lhes permite detectar quaisquer rastos frescos de focinheira alheia, mesmo a quilómetros de distância. São assim os nossos bufados.

Entre pausas digestivas cíclicas, os bufados estão sempre prontos a pregarem-nos sustos, não obstante o convívio e a habilidade criativa com que relacionam connosco.

Agora, a “vítima” foi uma linha de crédito, disponibilizada pelo governo Brasileiro, ao país. Montaram a ratoeira, com uma engenharia sofisticada, e deram-lhe um nome: STP-Trading. Mais tarde ou mais cedo, o destino do porco estaria traçado.

De mansinho, como quem não quer a coisa, com um aparente aparato organizativo e reiteradas proclamações filantrópicas associadas, para amaciar a presa, eis que os bufados, num gesto que já faz escola no país, zás, mataram o porco, esfolaram-no e transformaram-no num óptimo presunto que ameaçam comer, lá mais para frente, na estação das chuvas.

Nem o facto do porco se auto-proclamar Brasileiro valeu-lhe qualquer piedade. O governo, surdo, cego e mudo, acha, provavelmente, que deve ser esta a vocação existencial dos bufados e lembra-nos que o nosso limite e ambições gastronómicas começam e terminam no coco, quer queiramos ou não. Os deputados da nação, num coro burlesco que já nos habituaram, rezaram em conjunto, pela alma do fatídico porco agora transformado num presunto muito apetecível.

Mas o que é que se poderia esperar deste governo e destes deputados? Infelizmente, sempre foi assim na nossa terra. Ai do porco, que ousa passear a sua classe, na república, por mais magro que seja. Os bufados, atentos e com costas protegidas, transformam-no, logo, num bom presunto enquanto o povo é obrigado a continuar a comer coco.

Percebe-se agora, melhor, duas coisas. Primeiro, a razão pela qual o primeiro-ministro simulou receber os líderes dos diversos partidos políticos nacionais propondo-lhes duas datas alternativas (Novembro ou Fevereiro do próximo ano) para a realização das eleições locais e regionais e, passado algumas semanas, a Assembleia Nacional aprovou uma resolução que entra em contradição com a proposta e aparente interesse do senhor primeiro-ministro e adia, indefinidamente, a data de realização das referidas eleições. Segundo, o alcance e objectivos políticos, da guerra, contra o Tribunal de Contas, ficaram completamente esclarecidos, se é que existiam dúvidas sobre isso.

Fica-se com a sensação que, tanto o senhor primeiro-ministro, bem como, os deputados da Assembleia Nacional nunca quiseram que as eleições locais e regionais se realizassem e acham que o Tribunal de Contas é um empecilho democrático e, por isso mesmo, deve ser extinto.

Tudo isto é feito em prol da defesa, engorda e perpetuação dos bufados, que existem no país, e com o propósito de minimizar os níveis da transparência governativa e do aprofundamento democrático do país.

Eles sabem que quanto menor forem os níveis de transparência e do aprofundamento democrático, do país, maior será o palco para os bufados passearem a sua classe e perseguirem os raros porcos que ainda ousam passear nos nossos quintais.

O preço a pagar, por tudo isto, no futuro, é caro. Muito caro! Os nossos políticos esquecem-se, muitas vezes, que a política é um campo onde as falsas racionalizações, os processos sistemáticos de ocultação e de “brincadeiras de gente adulta com coisas sérias” ou de fuga para frente, em obediência aos interesses pessoais, de grupos ou partidários, acabam sempre, por encontrar, mais tarde ou mais cedo, o obstáculo das realidades sociais e culturais que determinarão o seu fracasso, com prejuízos incomensuráveis para a (re) construção do próprio Estado de Direito Democrático. É isto que já começa a acontecer, de forma sistemática, na nossa terra, quando se constata, reiteradamente, fenómenos de humilhação, agressão e desobediência às autoridades judiciais e/ou policiais.

Donde virá o próximo porco?

A.C 

 

publicado por adelino às 12:42
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