Sábado, 7 de Março de 2009

O Curandeiro, o Médico e o Doente

O país está doente. Muito doente! Em condições normais, esperaríamos que os nossos políticos, como os médicos em relação aos seus doentes, exercessem o seu poder para “curar” o país. Infelizmente, não é isto que acontece na nossa terra. Transvertidos de curandeiros modernos, os nossos políticos, nalguns casos, desejam muito o poder, pelo poder, transformando-o num antro de ociosidade, inutilidade e desvario e, noutros casos, aparentemente, não o desejam, nem nunca o desejaram, mas impõem condições, objectivas ou subjectivas, para a amplificação pessoal de tal poder, sobre os outros, rumo ao propósito do nosso adestramento colectivo. Ninguém compreende tais contradições e, o povo, triste e sem alternativas, nesta feira de curandeiros, que se comem uns aos outros, num cíclico espectáculo canibalesco insular, já não sabe o que fazer. É a nossa própria sobrevivência como património colectivo secular, que está em perigo, perante a insaciedade desta espécie exótica e invasora.

O país foi, recentemente, confrontado, segundo as autoridades nacionais, com mais uma tentativa frustrada de golpe de Estado. Os supostos golpistas foram detidos e ouvidos pelas autoridades competentes do país e todo o processo ainda carece de investigação complementar, apuramento de responsabilidades e respectivas explicações públicas por parte dos responsáveis ou entidades relacionadas com o assunto.

O que ninguém compreende é que no momento crucial, relacionado com os expedientes policiais e investigativos, para a detenção e inquirição dos supostos implicados, na referida intentona, o senhor Presidente da República, por interposta pessoa, anuncia ao país que se quer ir embora, desejando, assim, renunciar ao cargo que ocupa, deixando, posteriormente, o país suspenso, durante quinze dias, sem quaisquer explicações complementares relacionadas com o assunto.

O povo, mesmo habituado ao nosso curandeirismo caseiro, não queria acreditar. Afinal, o homem vai-se embora ou fica? Por que razão vai-se embora?! Que mal fizemos para sermos tratados, desta forma e neste momento delicado, perante um mandato popular que ainda vai ao meio? O Presidente está doente? O quê que está a acontecer com o Dique? Durante quinze dias o país ficou suspenso, sem respostas para estas e outras perguntas e com a hipótese, ainda em investigação, de ocorrência contextualizada de uma tentativa de golpe de Estado e esforços judiciais e políticos, para compreender a sua amplitude, responsabilizar os eventuais implicados e tranquilizar o povo e as instituições.

Numa altura em que se pedia que as instituições da República agissem em conformidade com a situação e delicadeza do assunto, em coordenação e solidariedade institucional, para tranquilizar o povo e salvaguardar os interesses da nossa embrionária democracia, eis, que, o mais alto magistrado da nação, depois de deixar o país suspenso durante quinze dias, sob ameaça de uma eventual resignação, resolve falar ao país, numa terça-feira de carnaval, para explicar ao povo a sua real intenção e os detalhes mais insólitos da suposta intentona falhada.

E o que disse Fradique de Menezes, de substancial e relevante, que tranquilizasse o povo e reforçasse as instituições, depois deste episódio rocambolesco? Disse, entre outras coisas, que estava pronto para continuar como Presidente da República pelo facto dos militares terem-no pedido que ficasse e que iria reunir os órgãos de soberania para debruçarem sobre a crónica instabilidade governativa do país, relacionando-a com o sistema de governação, em vigência, admitindo mesmo a possibilidade do povo se exprimir, em referendo, proximamente, sobre uma eventual alteração constitucional relacionada com o referido sistema de governação do país. Consciente ou inconscientemente, Fradique de Menezes, depois de admitir a hipótese de resignação, estava a legitimar, com tais palavras, a suposta intentona falhada, num exercício político de autocensura, extensível aos outros órgãos de soberania, que o levou a declarar o seguinte: «…Temos que falar. Eu quero que as pessoas digam, de facto, se querem ou não que este país avance e na estabilidade…cada órgão de soberania deverá assumir as suas responsabilidades e não o actual clima existente em que o Presidente da República é o responsável por toda a situação de instabilidade que ocorre no país…»

Era a última cartada de Fradique de Menezes, sob cacos de uma eventual intentona falhada, para reintroduzir, de forma oportunista, irreversível e chantagista, a questão do sistema de governação, na agenda política e mediática, condicionando a sua continuidade, como Presidente da República, em função da atitude e disponibilidade dos outros órgãos de soberania para lhe oferecerem o “Presidencialismo”.

É oportunista porque Fradique poderia reintroduzir esta questão, que se tornou numa obsessão política, em qualquer outra altura menos nesta, porque, ao fazê-lo agora, está a associar, objectiva ou subjectivamente, o sistema de governação, do país, que, na sua óptica, é o maior responsável por crises políticas cíclicas, com os propósitos da eventual intentona.

É irreversível e chantagista, porque, Fradique sabe que, tendo em conta o seu mandato, o calendário eleitoral e as condições existentes no interior do seu próprio partido, uma eventual renúncia abre-lhe perspectivas políticas para o reforço do conforto político-partidário; e, uma continuidade sua, no cargo, por cedência à chantagem por parte dos partidos representados na Assembleia Nacional, para alterar o quadro constitucional vigente, seria sinónimo de mais dez ou doze anos de “Fradiquismo musculado” porque o próximo inquilino do palácio presidencial seria, milimetricamente, escolhido e proposto por si, como Miguel Trovoada fez com o próprio, e eventualmente eleito. Em ambos os casos, a razão única, é a defesa titânica de interesses pessoais e de grupos. Por isso mesmo é que o “Presidencialismo” se transformou, neste caso, numa obsessão política. Além disso, sabendo Fradique de Menezes que a iniciativa legislativa para eventual alteração do quadro constitucional vigente cabe exclusivamente aos partidos representados na Assembleia Nacional excluindo-se, para tal, o instituto referendário, a sua reiterada obsessão por tal iniciativa, sob cacos de uma propalada intentona, reforça a ideia de oportunismo boçal e chantagem sobre os outros órgãos de soberania. O pior que os partidos políticos poderiam fazer, chantageados até a medula como estão, seria oferecer ao Presidente Fradique de Menezes esta prenda. Isto, sim, seria um “pequenino golpe de Estado”.

O povo esperava conforto político, tranquilidade, solidariedade institucional, segurança e mobilização após uma suposta intentona falhada e recebeu, em troca, desprezo, intranquilidade, chantagem política, insegurança e desmobilização institucional. Ninguém percebe esta reiterada pré-disposição dos nossos políticos em aplicar receitas do nosso curandeirismo caseiro para um país que está gravemente doente.

Por outro lado, Fradique declarou, reiteradamente, que nunca quis ser, por vontade própria, Presidente da República, tendo, por isso mesmo, afirmado, logo no início do seu mandato, o seguinte: «… eu tinha uma boa vida, ganhava dinheiro, tinha meninas e festas, e vieram os Trovoadas perguntaram-me se eu gostava de ser presidente, e aqui estou eu…». Mais recentemente, nesta última conferência de imprensa, voltou a insistir que não queria voltar a ser Presidente da República pois já tinha o seu nome na lista dos deputados, pelo seu partido, para Distrito de Me-Zóchi.

Perguntar-se-á então: uma pessoa que nunca quis ser, por vontade própria, Presidente da República, por que razão insiste, até aos limites de obsessão política, na alteração do quadro constitucional vigente amplificador das condições de reforço do poder presidencial? O senhor Presidente da República quer mais poderes para fazer o quê, se, ele, por vontade própria, nunca quis ser presidente, como tem declarado reiteradamente? O senhor Presidente da República não conhecia as regras constitucionais, antes de se candidatar ao cargo, por pressão dos Trovoadas, como ele mencionara?

 Se o senhor Presidente da República quisesse, de facto, renunciar ao cargo, por motivos de autocensura política, relacionados com a instabilidade governativa cíclica no país, deveria fazê-lo quando o ex-presidente do seu partido, MDFM/PL, Manuel de Deus Lima, desafiou-o, publicamente, para que ambos concorressem ao cargo de Presidente, do referido partido político, responsabilizando-o, directamente, pelas sucessivas crises governativas, no país, desde 2001. Disse o ex-presidente do MDFM/PL, na altura: «…Nós conhecemos sete primeiros-ministros de 2001 até agora….Quem fez cair o governo de coligação MDFM-PCD, liderado por Tomé Vera Cruz? Foi o próprio MDFM/PL mandatado por alguém que vocês sabem quem é…. No último Conselho Nacional chamei a atenção do Presidente honorário para que rapidamente se agende um congresso, porque estou na disposição de concorrer e desafiar seja quem for, incluindo o próprio presidente honorário. Mas para isso queria que ele respeitasse a concorrência. Primeiro que ele renunciasse o cargo de Presidente da República e depois concorrer a presidência do MDFM/PL, que eu disputarei com ele peito a peito, porque sou homem de terreno…»

Quem nos garante que esta pré-disposição, para a renúncia, do senhor Presidente da República, não seja a resposta momentânea do desafiado, ao desafiador, para tal combate “peito-a-peito” para a presidência do MDFM/PL?

Todos nós ficamos a saber, pela primeira vez, da boca do ex-braço direito e confidente de Fradique de Menezes, que as crises governativas cíclicas, desde 2001, foram provocadas por este, com intenção de enfraquecer as instituições, fragilizar o sistema e, consequentemente, criar condições políticas para arregimentação popular em defesa do seu “Presidencialismo”. O quanto, o povo não sofreu, por esta obsessão inútil para a nossa vida colectiva?!

Temos, assim, um Presidente que está, cada vez mais, próximo do MDFM/PL e menos próximo da República e, mesmo assim, quer maximizar os seus poderes decorrente de uma hipotética alteração do nosso quadro jurídico-constitucional. O povo, sem pão, água, e luz, já acha que “nenhum-presidente” é melhor do que “meio-presidente” e, que, a política exercida desta forma não serve para nada. Não me admiraria nada, que, daqui por algum tempo, seja o próprio povo a descartar-se do Presidente e da generalidade dos nossos curandeiros. O poder, pelo poder, exercido pelos nossos curandeiros é, manifestamente, uma forma de degenerescência do exercício do poder, e da política, que atrofia o aprofundamento da nossa democracia. O país, doente e sem esperança, precisa de “médicos”, em detrimento de curandeiros, que exercem o seu poder sobre o mesmo com a finalidade de o “curar”. Onde estão estes “médicos”?

 A.C

 

publicado por adelino às 21:56
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