Domingo, 17 de Setembro de 2006

A Sós

 

«…Vamos ficando, cada vez mais, a sós com a nossa própria responsabilidade histórica de criar uma outra História. Nós não podemos mendigar ao mundo uma outra imagem. Não podemos insistir numa atitude apelativa. A nossa única saída é continuar o difícil e longo caminho de conquistar um lugar digno para nós e para a nossa pátria. E esse lugar só pode resultar da nossa própria criação…»

 

Mia Couto – Pensatempos

publicado por adelino às 17:38
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Sexta-feira, 8 de Setembro de 2006

Os Porta-Aviões e o Canto da Sereia

 

Estes são os momentos finais de umas férias não programadas. Numa esplanada, algures no sul do Mediterrâneo, saboreio, com invulgar satisfação, a última gota de uma bebida e descortino, ao longe, o vulto poderoso de um navio rasgando a água. Nas redondezas vislumbro algumas ilhas, aparentemente desabitadas, que denunciam algum mistério. Não será este o local onde Ulisses resistiu perante o canto das sereias? A minha tranquilidade é alimentada, momentaneamente, com doses maciças de músicas da terra, oferecidas por um grande amigo, que saltitam, programadamente, dos auscultadores de um CD portáctil para parte incerta da alma. Ouço, pela trigésima primeira vez, as mesmas músicas dos Úntues, Sangazusa, Leonenses, África Negra, Mindelo e África Verde. Parecem-me totalmente actualizadas relativamente a um país que parou no tempo. Agora é a vez do Ayder Índia, famoso e saudoso cantor do conjunto Sangazusa, sentenciar:

“Legué bi, legué bi; Quinté cê sá quinté dê mé… Legué bi, Legué bi; Zugá casca fluta déôôô…”

Embora o ritmo da rumba em causa me agrade, reconheço as minhas dificuldades na interpretação profunda, rigorosa e contextual, da totalidade dos versos da referida música, mas, naquele momento, local e situação, aquele pequeno trecho musical ajuda-me a reentrar em sintonia com a realidade, política e social recente, do meu país. Não poderia ser de outra maneira. De facto, aqueles versos parecem-me cantos de sereia e indiciam a repetição da história, política e social recente, do país, embora, com outros protagonistas. Desfaço-me, por uns momentos, dos auscultadores do CD e abano o corpo e a alma como os porcos depois de um banho de lama. Como previra Fradique de Menezes ganhou, e bem, a eleição presidencial, já tomou posse, e transformou-se, juntamente com o seu MDFM/PCD, no novo “porta-aviões” da política Sãotomense. Ninguém, medianamente inteligente que, conhece a cultura política e sociedade Sãotomense, poderia esperar outro cenário, nestas eleições, nem surpreender-se, pateticamente, com a amplitude e rasgo deste novo “porta-aviões” político, milimétrica e estrategicamente, concebido há anos. Só a oposição, entretida com banalidades, surpreendeu-se e, agora, agoniza. Por isso, o que me parece fundamental, agora, não é tanto a adjectivação fácil e oportunística em torno da façanha do novo”porta-aviões” nacional mas, o que vão fazer com ele para que a história recente do nosso país não se repita perante cantos e chamamentos, insistentes, das sereias. O mar continua cheio de sereias que cantam incessantemente: “Legué bi, legué bi; Quinté cê sá quinté dê mé… Legué bi, Legué bi; Zugá casca fluta déôôô…” É este mesmo canto magnético que afundou o MLSTP/PSD cuja acção redundou numa política de “ir andando para ver o que dá” até se deixar surpreender por uma dificuldade momentânea chamada Fradique de Menezes. Este, se quiser romper com o ciclo vicioso de incapacidade e desespero que se apoderou do país e entrar para a história do mesmo como um activista visionário que estimulou os seus concidadãos a tomarem novos atalhos em prol do desenvolvimento sustentado das ilhas, não deverá optar ou contentar-se com deixar as coisas como estão numa política, de “ir andando para ver como é que ficam” que, acabou por afundar o “porta-aviões” MLSTP/PSD; ou, pior ainda, intervir para deixá-las pior do que estão, convencido do milagre que o petróleo irá realizar num futuro breve. O país não suportará, do ponto de vista psicológico, social, económico e cultural, o afundamento de dois porta-aviões, sob cantos ou chamamentos das sereias, num curto intervalo de tempo. O porta-aviões Fradique de Menezes e o seu MDFM/PCD têm de ter a lucidez e inteligência política para aproveitar a decepção que foi o afundamento do porta-aviões MLSTP/PSD e transformá-la numa oportunidade rara e irrepetível na nossa história. Tenho dúvidas, e reservas, que assim seja, tendo em conta o discurso, desorientação e incapacidade reformadora que ainda se verifica no país. A política não é mera administração daquilo que está mal, ou menos bem no país, mas, o esboço programado e afirmativo – de acordo com as condições, meios ou recursos existentes – de áreas de actuação que nos proteja da (o): incompetência crónica; pobreza generalizada crescente; fenómeno “banho”; crise da credibilidade dos políticos; corrupção galopante; cidadania dócil e fenómenos de carneirismos associado, bem como, de outras irracionalidades ameaçadoras. Os porta-aviões nacionais não podem continuar a flutuar em exercícios de improvisações, de expedientes avulsos e de rectificações desastradas e apressadas, contribuindo assim, para facilitar a vida das sereias que continuam a enfeitiçar e devorar, com a sua voz melodiosa e encanto, aqueles que delas se aproximam. Por isso mesmo, Fradique de Menezes, só tem uma solução. Quando ouvir o canto ou verso” “Legué bi, legué bi; Quinté cê sá quinté dê mé… Legué bi, Legué bi; Zugá casca fluta déôôô, qual Ulisses, Fradique deve mandar a tripulação do seu “porta-aviões” tapar os ouvidos com cera e ordenar que ele, como comandante, seja amarrado ao mastro e impedido de ser solto por mais que implore e grite. Com isso conseguirá, provavelmente, salvar a tripulação do seu “porta-aviões” e chegar feliz ao destino. Será o comandante, do “porta-aviões” em causa, suficientemente racional, resistente e metódico para a façanha em causa? Veremos! É bom, no entanto, relembrar que se não houver uma concepção programática consistente e um suporte organizativo do “porta-aviões” em causa, anterior à conquista do direito às organizações do Estado, a ocupação, legítima, das referidas organizações, diminui, paulatinamente, o poder político de quem ganha as eleições em vez de o aumentar. Que o diga o “porta-aviões” MLSTP/PSD. Só assim faz sentido falar em racionalidade, resistência e método, valorizando a importância do Estado como factor de poder. Por ironia do destino coube ao Fradique de Menezes, depois de lutar obstinadamente pelo seu “presidencialismo”, a tarefa de demonstrar, após a entrada em vigor da nova constituição, que as deficiências funcionais do nosso sistema partidário e as dificuldades políticas na nossa terra não têm a sua génese na dimensão vertical do poder. Conseguirá prová-lo?

 A.C 

 

publicado por adelino às 22:51
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Segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

Os Interiores e Exteriores em Férias

 

Acabei de chegar do lado exterior de cá. O exterior, de lá, ficou longe!

Vivendo e trabalhando em Portugal, como qualquer emigrante, planifico, antecipadamente, as férias e, não raras vezes, têm como destino o meu país de origem, ou seja, o lado interior, ou de dentro, de um exterior. Lá costumo mastigar, ensalivar, deglutir e digerir, saudavelmente, preocupações que um exterior, em férias, rejeita encontrar por questões de interioridade vivencial. Cá, como desta vez, limitei-me a saborear, em tranquilidade, a virtude estática, externa e cerimonial que os interiores, do exterior de cá, me oferecem. Por isso houve mais tempo para reflexão interna estando eu no exterior de cá. É assim a vida dos Interiores e Exteriores em Férias.

O Sul do Mediterrâneo ajudou-me a aprender a escutar vozes internas, do exterior de lá, com grande conteúdo profético.

A.C

 

publicado por adelino às 21:14
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