Terça-feira, 19 de Abril de 2005

A Erosão do Tempo observada de uma Discreta Janela...

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Autor da foto: Lionel Healing



Sessenta e Um virou Trinta e Um...




Chove torrencialmente nas ilhas! Uma placa desajeitadamente colocada nas ombreiras superiores da porta, assinala: BOTEQUIM – MARIA PRETA & CARDOSO. Lá dentro, esconde algo mítico, apelativo, que devora qualquer cenário de indiferença.
Ao redor de uma mesa, encontra-se uma pequena multidão, maioritariamente masculina, cujos tiques, oscilações de expressão e entusiasmo, não consigo descortinar as causas. Aproximo-me lentamente, com cuidado e zelo de quem pode interromper, involuntariamente até, uma qualquer sessão ritual mágica ou coisa parecida. Ninguém dá pela minha aproximação. Um silêncio sepulcral rasga as minhas tentativas forçadas de imaginação e compreensão do comportamento daquela pequena multidão.
Qual a causa daqueles tiques? Por que razão mudam de expressão e entusiasmo com tanta rapidez? Se não há música nem qualquer outro estímulo adequado, por que razão gesticulam no vazio sonoro?
Coloco-me estrategicamente num dos bancos fixos, defronte do balcão, suficientemente perto para detectar a origem dos códigos que parecem embriagar de entusiasmo e inquietude, a alma daquelas pessoas. Descortino quatro figuras masculinas, de meia idade, sentadas em cada um dos lados da mesa, com os cotovelos ou as mãos sobre a mesma. Aqueles quarenta dedos parecem autênticas guarnições, no interior dos quais se escondem vinte cartas que, hão-de ditar a melancolia ou felicidade de cada uma das duplas em contenda. No meio da mesa, o Ás de copas esconde o rosto de outras vinte cartas que se encontram enfileiradas. Joga-se a “bisca sessenta e um”! Há enorme tensão, códigos e simulacros naquela mesa que, sustentam as oscilações de comportamento daquela pequena multidão, e, transformam o jogo, aparentemente banal, num acto de transcendente religiosidade. Aí, o individualismo não tem expressão e toda a manobra táctica e/ou estratégica para levar de vencida o adversário, exige desempenho e interesse inter-pares que, contamina, empolga e divide a plateia aí representada ao redor da mesa. Há como que, uma “solidariedade mecânica” inter-pares que, alimenta os propósitos daqueles jogadores e dá essência estética aos códigos aí presentes. Os dedos das mãos falam, os oito olhos seguram os segredos das quarenta cartas do baralho e os murmúrios na língua materna, lançam um aroma no ar que, suspende a respiração dos presentes. As cartas são acariciadas, vasculhadas na sua intimidade, e, mesmo nos momentos de exaltação ou manifestação fugaz de domínio sobre o outro, como nos “casamentos”que, acontecem durante os jogos, existe uma singularidade, enobrecedora do acto em causa. Não há rotinas nos gestos, nem assombro perante investidas do adversário, e os jogadores parecem descobrir particularidades novas, nas cartas descascadas de velhas. Os trunfos ganham importância redobrada, porque, permitem conter ímpetos aventureiros de manifestação de superioridade perante o adversário e minimizar estragos decorrentes da falta de sorte do parceiro do jogo. Aí, a solidariedade inter-pares é máxima; a organização é espontânea e indispensável ao sucesso; a desordem ou caos podem contribuir para contornar negativamente, o destino de qualquer das equipas em jogo. É esta a essência da “bisca sessenta e um” que, mobiliza aquela pequena multidão ao redor da mesa; solidifica a nossa religiosidade nos momentos de infortúnio inerentes aos nozadus, e, embala timidamente a nossa auto-estima, perante extremismos de manifestação de poder. Mata-se e morre-se voluntariamente, jogando! Casa-se com engenho, correndo riscos! Há igualdade de oportunidades para todos. Não há registo de qualquer outro jogo naquelas paragens, com tanta carga simbólica. Hoje, perante erosão escandalosa dos mais elementares valores morais na nossa sociedade, as pessoas optaram por jogar o “trinta e um” naquele mesmo botequim, debaixo das mesmas condições climatéricas. O único registo nostálgico naquele contexto, diferenciador da moda actual e valorizador dos alicerces da nossa identidade cultural, é a música de MÉ POMBO e MÁ PÉTU que, irrompe dos altifalantes velhos, estrategicamente colocados na rua principal onde se situa o botequim. As figuras do jogo e assistência, são as mesmas; só que, mais velhas, com tiques e comportamentos antitéticos da versão da “bisca sessenta e um”. Compreende-se facilmente esta atitude, já que, no “trinta e um” predomina a confusão, o individualismo, o egoísmo, e é mais susceptível aos contornos da batota. No “trinta e um” não há códigos nem regras que, consubstanciam uma estratégia inter-pares, nem comportamentos ou intenções que, ajudem a fomentar hábitos de solidariedade. Cada um defende os seus interesses e fortalece a sua posição táctica no jogo, fazendo-o de preferência, contra jogadores fracos. O recurso à batota é estimulado. Destas particularidades de jogar o “trinta e um” e consequentemente da nossa vida actual, resulta um perturbante desequilíbrio afectivo da nossa sociedade, com grandes implicações em todo o processo de educação e/ou socialização das nossas crianças e jovens, com repercussão na sociedade que pretendemos construir no futuro.
Alguns estereótipos decalcados de modelos importados e adoptados acriticamente nos comportamentos de alguma elite saloia local, acabam por provocar um certo tipo de caos moral, em que o cidadão comum, se vê obrigado a adoptar ou rever. A generosidade e solidariedade foram banidas do nosso quotidiano; o egoísmo e a ganância geraram o sucesso social; a delicadeza no trato e sensatez, constituem autênticas aves raras em vias de extinção. A agressividade, pelo contrário, é eleita como recurso para sobrevivência e a vaidade constitui factor indispensável de promoção social e política no país.
Os curandeiros ergueram-se em pedestal próprio e, em competição com os políticos, transformaram-se rapidamente, em figuras centrais das nossas vidas: existem curandeiros para ricos e para pobres. Há quem vaticine que, nos próximos tempos, serão estes senhores a decidirem sobre assuntos importantes da nossa vida colectiva – política, económica e social. Não raramente, os meninos da rua – que constituem juntamente com os nossos velhinhos, os elos mais fracos da nossa sociedade – pregam-nos partidas que, ajudam a antecipar o cenário fílmico do nosso destino colectivo. Como produto ainda inacabado da sociedade que estamos a construir, estes inocentes foram julgados à revelia, nos tribunais dos poderosos.
As nossas mães e avós, são indiferentemente rotuladas de feiticeiras, e, em alguns contextos, espancadas até a morte, perante passividade popular e policial.
Passamos a vida, a amenizar as nossas culpas, pecados e angústias, indo ao encontro dos sermões matinais nas igrejas e, para embalar os nossos medos, desejos escondidos, ambições e felicidade pessoal, recorremos às sessões vespertinas do nosso curandeirismo caseiro. Estamos definitivamente, de bem com Deus e com o Demónio. É neste equilíbrio espiritual que, encontramos forças e energias, para nadar nas águas agitadas do materialismo que atormenta os pilares da nossa sociedade.
Só que, este “trinta e um” pode-nos trazer problemas, sobretudo porque, as nossas crianças vão crescendo privadas de modelos consistentes que, lhes permitam “saber ser” e “saber fazer”, e, a erosão de todo o sistema de valores clássicos na nossa sociedade, começam a permitir a interiorização da ideia de que: onde existe um Sãotomense, há poder; dois, haverá necessariamente confronto; três, reinará a desorganização; quatro, implicará a anarquia e cinco, será o caos total. Começa de facto, a ser já evidente, a nossa incapacidade de união e mobilização em prol de um projecto colectivo. Por paradoxo que pareça, a materialização e moda recente, dos governos de unidade nacional e os conflitos institucionais que aconteceram recentemente no país, reflectem sintomas desta fragilidade.
Será difícil encontrar e adaptar novas matrizes de organização política e social, perante estas novas configurações que, constituem constrangimentos à sedimentação da democracia na nossa Terra, sistematicamente ignoradas (consciente ou inconscientemente) pelos políticos. É bom que, os nossos políticos entendam que, a função nobre do poder é criar as condições para minimizar ou atenuar os constrangimentos. De nada servirá o desfile da verborreia fácil habitual, em redor de temas como a liberdade de expressão e manifestação, tolerância, respeito pelas opiniões dos outros, solidariedade, companheirismo, etc, se, a montante, não se criarem as condições que, permitam a interiorização e materialização de tais condutas.
Ainda continua a chover torrencialmente na ilha, e só espero, que, as pessoas fiquem suficientemente molhadas depois de se franquear as portas e obrigá-las a saírem do interior do botequim, para que, a condição subjacente aos contornos da experiência, se transforme num diálogo reflexivo permanente, que, permita a mobilização de todos, para um empreendimento colectivo, que traga felicidade ao nosso povo.













publicado por adelino às 20:04
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