Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006

Sublevações e outras Coisas

Aconteceu recentemente em S.Tomé e Príncipe, mais uma sublevação militar, que, já começa a ganhar contornos de banalidade, dentro da nossa Santa Mediocridade. Os militares revoltam-se quando as condições salariais ou de hierarquia não são as melhores. Os polícias revoltam-se contra chefias e exigem ao governo, demissão das mesmas e melhorias das condições de trabalho e de salário. O Governo corre, feito louco, com as calças a caírem, para satisfazer os pedidos da nossa polícia. Alguns serviços e/ou empresas estatais, começam a ganhar confiança e também já admitem despedir e/ou não aceitar directores nomeados pelo Estado para direcção destas empresas ou serviços, temendo que os nomeados vão para ai roubar e rebentar com os resultados e credibilidade da empresa. Alunos do Liceu mandam militares para casa, sendo que estes foram solicitados ou requisitados anteriormente pelo próprio Estado para protecção daqueles, contra abusos de estranhos no recinto escolar em causa. O Zé-povinho vocifera e jura que não haverá eleições no país, se, localmente não se resolverem problemas específicos de determinadas regiões como construção de estradas, água canalizada, esgotos, lixeiras, miséria, etc. Os funcionários públicos também saltam para a festa e reclamam a cabeça do Estado se, o mesmo não pagar o que deve aos mesmos. O Governo, aflito e entre muitos fogos que ateou ou ajudou a reabilitar, corre de calcinhas na mão procurando água onde só existe gasolina. É muito bem feito!!!! Tudo isto passa-se dentro da maior tranquilidade, num país onde só se fala momentaneamente, de referendo, eleições, petróleo e outras banalidades. Sou estruturalmente contra golpes de Estado num contexto democrático, e, entendo que, não deverá haver circunstâncias que atenuem a responsabilidade dos autores dos mesmos, nem tão pouco, as consequências decorrentes da sua efectivação (quaisquer que forem) devem servir de suporte para a sua legitimação. Isto abriria um precedente grave para legitimação de outras coisas, tendo como pretexto as “circunstâncias de momento”. Num contexto democrático, entendo que não deve haver “golpes bons” e “golpes maus”. Uma das consequências de golpes de Estado é a degenerescência dos regimes democráticos pouco ou nada consolidados, em nome dos quais são materializados estes golpes de Estado, para depois submeterem muito rapidamente, os homens e as mulheres aos caprichos mais bárbaros em nome dos objectivos em causa. Acho mesmo que, um povo, qualquer que ele fosse, no meio do qual se instalasse a ideia de que deve a sua felicidade aos golpistas, não a conservariam por muito tempo. Infelizmente, a história recente da África é feita assim. A Guiné-bissau parece-me ser um exemplo. Além disto, se a nossa sociedade, transversalmente, tem um PODER assim tão forte (a tal Feira de Ponto como alguns caracterizam) constituindo como dizem um forte CONTRAPODER, isto por si só, deveria constituir motivos excepcionais para rupturas, dentro do quadro democrático, dispensando o recurso aos golpes de Estado. A não ser que estejam a querer referir outra coisa qualquer, em nome deste PODER. O que se verifica normalmente, é que, quando “o povo é fraco o Estado é forte” e quando “o Estado é fraco, o povo é forte” o que permite pensar que, o Estado tenderá por todos os meios, a atenuar e/ou enfraquecer a expressão do povo. Ora, não é isto que se verifica em S.Tomé e Príncipe. De um lado temos um Estado que menospreza o povo; do outro lado está o grupo daqueles que não têm PODER, do homem que pouco ou nada conta, diluído no social e com poucas oportunidades de desenvolver o eu pessoal, o seu PODER no fundo, limitado a uma existência meramente vegetativa. São estes que, compreendendo e interiorizando a ideia da falência completa do Estado, inconscientemente até, começam a comportar e agir em completa anarquia nalguns casos, (com legitimidade e autoridade noutros) pondo a nu aquilo que já se adivinhava vir a acontecer mais tarde ou mais cedo. Estes não são epifenómenos insignificantes; é a inauguração de hábitos e comportamentos que hão-de de ter consequências perigosas no futuro e moldará indelevelmente a memória da geração dos actuais políticos nacionais. Um Estado que não se respeita, desorganizado, que não consegue controlar a corrupção, que esbanja de forma ineficaz os bens públicos, com instituições que se digladiam constantemente, merece ser respeitado ????

publicado por adelino às 22:43
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