Sábado, 23 de Abril de 2005

O Congresso dos Conservadores

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Parece-me dramaticamente insuportável, os contornos kafkianos inerentes à organização e consequente realização do congresso do MLSTP/PSD e, percebo a inquietação ou sobressalto dos críticos do referido evento. Por isso mesmo, algumas evidências relacionadas com o congresso em causa merecem referências.
Em primeiro lugar, nunca se falou e especulou tanto, na comunicação social, nos corredores do poder, nas conversas de taberna e afins, sobre as virtudes, defeitos, negociatas, truques, organização e malabarismos político, pessoal e institucional, no período anterior à realização de um congresso partidário no país, como neste caso. Sendo isto aparentemente benéfico, até pela história e importância local do partido em causa, os seus dirigentes preferiram a autoflagelação em detrimento da glória, a aparência no lugar da substância e a continuidade em vez de ruptura, perdendo com isso, uma boa oportunidade para acelerar reformas no partido em causa e no próprio país.
Por mais ruídos que vozes embriagadas de um saudosismo paroquial, façam chegar aos céus, desesperos inerentes à despedida do criador da “espécie” em causa, ele mesmo, em carne e osso, já se encarregou de dizer bem alto do seu posto de timoneiro que, “…não me vou recandidatar nem me despedir de vós…” (sic) prometendo vigilância e controle apertado aos actuais detentores do poder, directamente do seu posto ou núcleo de base em Pantufo.
Em segundo lugar, parece-me absolutamente evidente que, a vontade expressa e reiteradamente propagada pelos órgãos e dirigentes do partido em causa, de sobrevalorização da ideia e objectivos inerentes à renovação dos quadros, métodos e práticas no interior do mesmo, com a realização do evento em causa, ficou muito aquém do razoavelmente esperado, por culpa dos propalados renovadores e indolência meticulosa dos barões da corte. É óbvio que, a conjuntura política e a consequente essência estratégica, premeditadamente assumida, de diluição de antagonismos internos estéreis, favorecedor de uma imagem externa de união, rumo aos combates eleitorais que se avizinham, contribuíram voluntária ou involuntariamente para a manutenção do status quo vigente. Se isto resolve aparentemente os problemas momentâneos do partido, parece-me no entanto, perfeitamente prejudicial aos interesses do país, na medida que, o partido em causa, perdeu uma grande oportunidade de se confrontar consigo próprio e com as suas capacidades, preferindo definir as suas posições e estratégias, somente como reacção ao que os outros fazem ou pensam fazer, num futuro político e eleitoral próximo, aceitando atitudes e procedimentos de risco máximo para a conquista do poder. Como é que um partido importante e com vocação de poder como o MLSTP/PSD pode contribuir para o enraizamento da democracia política na nossa sociedade, ajudando assim a construir um futuro de liberdade para todos nós, conservando no seu seio, vícios e tiques antitéticos ao sistema político vigente no país ?
Não me apetece momentaneamente, relembrar Rosa Luxemburgo e as suas discussões com Lenine, porque provavelmente, os barões do MLSTP/PSD conhecem-na melhor do que eu. No entanto, ela dizia que “… a liberdade é sempre unicamente liberdade para quem pensa de outro modo. Não é por fanatismo de “justiça”, senão porque tudo o que possa haver de instrutivo, saudável e purificador na liberdade política, depende dela, e perde toda a eficácia quando a “liberdade” se torna um privilégio…”
Neste congresso, os conservadores não terão tido um tratamento privilegiado de liberdade em detrimento dos renovadores ? Como é que se pode fazer referência ou alusão às várias correntes de opinião ou tendências existentes no seio do partido, (renovadores / conservadores) como Pinto da Costa fizera no seu discurso de abertura, e ao mesmo tempo, diluir ou suprimir a manifestação dessas correntes e do seu antagonismo no seio do partido, através de tentativas forçadas ou aparentes de construção de unidade ? Isto só é possível e compreensível à custa de direitos de participação e sobretudo de decisão que, constituem essência de qualquer sistema democrático. A diferença gritante entre votos expressos e contabilizados que contribuíram para a eleição do actual Presidente do partido e o número de delegados ao congresso em causa, não será sintoma dessa fragilidade ?
As tendências ou correntes de opinião no interior dos partidos, sobretudo em tempos de crises, constituem uma inevitabilidade, e é o próprio Pinto da Costa que admite a sua existência no interior do MLSTP/PSD, e, como tal, a sua livre expressão devia ser um sinal de saúde democrática, manifestada em propósitos de apresentação de candidaturas alternativas para os diversos órgãos do partido, incluindo a Presidência.
Os supostos renovadores, também têm culpas, na medida que, submissos e em silêncio, deixaram o partido percorrer a partir de agora, um caminho que aparentemente discordavam, pouco favorecedor da regeneração necessária, após uma presidência carismática e personalizada como a do Pinto da Costa. O que é que os renovadores pensam por exemplo da reorganização do partido, tendencialmente dirigida para protecção do mesmo em relação a estratégias de manipulação por minorias, políticas de facto consumado, golpes, capacidade de dramatização das situações introduzidas por alguns agentes políticos singulares, etc ? O que é que pensam do alcance informativo, acesso a espaços de debate, intervenção e decisão, de todos os militantes do partido no interior do mesmo ? Quais são os protocolos de comunicação e abertura que devem ser estabelecidos com a sociedade civil, maximizador da satisfação dos objectivos políticos momentâneos do partido ? É óbvio que, não conhecendo, por omissão e/ou submissão dos propalados renovadores, as respostas para estas e outras questões com que o partido e o próprio país se confrontam, os mesmos acabaram por claudicar e ajudar a transformar este congresso partidário do MLSTP/PSD num congresso dos conservadores. É óbvio que os barões do MLSTP/PSD sabem que o modelo excessivamente personalista da nossa cultura política, prevalece sobre qualquer tipo de doutrina ou voluntarismo de ocasião. Por isso mesmo, nada melhor do que explorar o “filão” Pinto da Costa até ao limite ósseo, por vontade e interesse deste e contentamento de uma parte do partido. É a simbiose perfeita para os próximos tempos de “guerra” e incertezas. Se isto assusta e atormenta meia dúzia de pessoas bem identificadas no interior do partido, o que me parece normal, o mais significativo é que deixa excitada a generalidade da oposição e uma parte da elite local.





publicado por adelino às 14:05
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