Sábado, 14 de Maio de 2005

Complexo do buraco de Caranguejo

Crabb.jpg


Autor da foto: J.Baillie


Estaremos condenados a andar sistematicamente para trás como os caranguejos??




Não há decisão nenhuma que possa transformar a vida num museu, com conforto estético e organizativo, tudo previsto, arrumado e definitivamente acabado. Isto seria o desejável, embora fastidioso, sobretudo em sociedades como a nossa, entulhada de comportamentos ziguezagueantes e algum miserabilismo ao nível de comportamento e valores. Existirá sempre formas naturais de evolução das sociedades que comportam riscos e processos de mudança. A propósito disto, lembro-me de um acontecimento desconcertante que, marcou a minha infância enquanto um reguilas ecológico. Como forma de combater a praga de caranguejos lá no quintal da casa, tínhamos por hábito, introduzir indiscriminadamente nos buracos dos mesmos, água muito quente, enquanto os seres em causa permaneciam nos respectivos refúgios. No deve e haver contabilístico, inerente à táctica de combate à praga em causa, - semanal ou mensal – ficávamos sempre com a sensação de que o número de caranguejos no quintal e redondezas, não estava a diminuir. A minha avó, sempre ela, que tinha uns olhos maravilhosos para estas coisas, suportado por um empirismo ecológico inigualável, aproximou-se de nós, ingénuos miúdos, e fez-nos ver que, a quantidade, não era naquele caso, sinónimo de qualidade, ajudando-nos na tarefa de selecção rigorosa dos buracos, nos quais deveríamos introduzir água quente para melhor combatermos a praga dos caranguejos. Recordo vagamente da minha avó, durante a tarefa em causa, dissertar sobre: a “casa” e/ou disputas territoriais entre os referidos crustáceos; o tamanho, arquitectura e qualidade dos sedimentos que suportavam a diversidade dos buracos existentes; o tamanho dos bichos e a diferenciação anatómica entre os géneros da espécie em causa. Tudo isto tinha como objectivo, facilitar os mecanismos de selecção dos buracos dos caranguejos nos quais deveríamos introduzir água quente, com níveis ou resultados de rentabilidade, no controle da praga em causa. Desde aquela altura, entre nós, ingénuos miúdos, passou a existir um “complexo do buraco” para combater os caranguejos. A estratégia da minha avó resultou e conseguimos controlar a praga dos caranguejos lá no quintal. De facto, os “malditos” caranguejos desenvolveram anteriormente tanto, atingiram um número crítico, passaram a construir buracos que, eram autênticas galerias no subsolo, transformando os mesmos em fortalezas intransponíveis. Ou seja, sem que disso tivessem consciência, agiam segundo relações intra-específicas de defesa mútua, dotada de uma inteligência colectiva, adquirida em função da sua massa crítica. Era esta a receita e o sucesso destes crustáceos terrenos, perante miúdos reguilas e ingénuos. Agindo segundo instruções de uma inteligência colectiva, ainda que inconsciente, aqueles crustáceos só podiam vencer. No caso de S.Tomé e Príncipe, e, querendo estabelecer paralelismo com os caranguejos em causa, parece-me que, o nosso maior problema é a falta da chamada massa crítica suficiente que, nos permita resolver os problemas que enfrentámos diariamente, alguns dos quais, criados por nós próprios, por constrangimentos de organização social, política e institucional, decorrentes deste défice de massa crítica. O caso GGA é um exemplo flagrante desta constatação. Um povo que é pobre e enfrenta problemas socioeconómicos diversos, deram-no uma ajuda preciosa para minimizar este constrangimento, e nós, transformamos esta ajuda num novo problema para o país. Tem sido este, o problema do nosso atraso crónico. Caminhamos claramente para a autodestruição. É exactamente este, o termo e o tempo. Provavelmente, por isso mesmo, como testemunho de último fôlego enriquecedor do desastre agonizante que nos espera, brindaram-nos com o petróleo. Muito petróleo, segundo dizem. Não tendo massa crítica suficiente que nos permita agir segundo códigos e instruções de uma inteligência colectiva, maximizador das vantagens que o recurso em causa poderia trazer ao país, já começamos a transformar este petróleo também num problema, ou melhor, em muitos problemas. Só que, neste caso da temática petróleo, a interpenetração de interesses é maior e estes “nossos problemas” perdem a intimidade caseira e acabam por transformar também, em problemas dos outros. Ou seja, já começamos a contaminar os outros com os nossos problemas. Trata-se de um processo autofágico cíclico, que o petróleo veio aumentar. Passámos a vida a construir e destruir sucessivamente. Este ciclo de “construção-destruição” ficou irremediavelmente desequilibrado, com o aparecimento do petróleo, na medida que, amplificou o treino e motivação das pessoas para a arte de destruir, em detrimento da construção. Os últimos acontecimentos de guerrilha institucional no país, relacionados com a temática petróleo, parecem credibilizar o diagnóstico em causa. Estão criadas assim, as condições para as pessoas se matarem umas às outras, num contexto de miserabilismo político, cultural, económico e social, sobretudo porque não há massa crítica suficiente que, garanta a criação de condições de tranquilidade pública. O monstro começa a atingir proporções preocupantes. Que estratégias proporia a minha avó para o controle ou destruição do mostro em causa?



publicado por adelino às 17:56
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