Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

A Festa II

Os trabalhadores da função pública Sãotomense, também resolveram saltar para a festa. Só posso aplaudir a iniciativa em causa. Acho que, os contornos e motivação da recente greve dos referidos trabalhadores, resultam essencialmente, da profunda crise estrutural que aflige o nosso sector administrativo e social – saúde, segurança social, justiça e ensino – que, não podem constituir ilhas isoladas dentro da ilha, muito pelo contrário, reflectem o pulsar de toda a sociedade que já começa a atingir níveis insuportáveis de sufoco. Por isso mesmo, e ao contrário dos impropérios e falácia barata contra os trabalhadores em causa, que, alguns intelectuais e liberais de ocasião, andam a propagar reiteradamente, com o objectivo de minimizar as motivações e os resultados da referida greve, entendo que, ela é oportuna, desejável e pertinente. Quem é que projectou, implementou e desenvolveu este modelo económico e social, cujos resultados são conhecidos e reflectem a crise estrutural em que hoje vivemos? São os professores Sãotomenses? São os médicos Sãotomenses? São os técnicos Sãotomenses? São os trabalhadores da função pública Sãotomense que falharam sistematicamente os compromissos assumidos com o Banco Mundial e FMI, com vista a melhorar a absorção e eficiência da ajuda externa Sãotomense ao desenvolvimento do país? Quem tem estado a claudicar desde 1996 relativamente aos contornos do cumprimento de políticas de natureza económica e de reformas sociais no país, no âmbito da iniciativa HIPC, lançada pelos credores multilaterais, com vista a aliviar o país do peso da sua dívida externa? São os trabalhadores da função pública que, têm momentaneamente um salário base de cerca de 30 dólares, os responsáveis pela tarefa em causa? Como se explica, que, tendo sido S.Tomé e Príncipe, segundo Gerhard Seibert (Camaradas, Clientes e Compadres) “… de longe, beneficiário da maior ajuda oficial ao desenvolvimento no mundo, 452 dólares per capita (1995) a pobreza aumentou nos últimos anos…” ? As promessas de melhoramento do rendimento dos trabalhadores da função pública Sãotomense, não podem estar cronicamente dependentes dos níveis de eficiência governativa e política dos dirigentes Sãotomenses, que, têm demonstrado de forma sistemática, desprezo e alguma impreparação para a tarefa em causa, arrastando para a miséria, milhares de trabalhadores e suas famílias, condenando o país aos contornos da “ditadura” do Banco Mundial e FMI, e o país ao subdesenvolvimento. Onde é que estes “gatos famintos”, transvertidos momentaneamente em intelectuais e liberais estavam escondidos, que, perderam uma soberana ocasião de criticar os sucessivos governos que condenaram o país aos contornos da realidade económica e social vigente, mas agora, fazem gato-sapato dos trabalhadores da função pública que, legitimamente reivindicam os seus direitos? A greve é um direito fundamental dos trabalhadores e o seu exercício está regulamentado e disciplinado. Além disso, assusta-me e parece-me uma tremenda contradição, que, alguns destes intelectuais que vociferam contra a apatia e inércia popular, perante fracassos governativos sucessivos que conduziram o país para a presente situação económica e social, sejam os mesmos que, agora, resolvem bater no “ceguinho” porque quebrou a abulia. Os movimentos sindicais não têm de estar subjugados: aos caprichos de natureza político-partidária conjuntural; a teias de interesses e/ou de favores políticos ou económicos, ou ainda, aos apetites predatórios de movimentos referendários, para alimentação de objectivos alheios e singulares. Quando esta começar a ser a prática institucional dos movimentos sindicais nacionais, será sinónimo da receita para a sua morte e consequentemente, para o atrofiamento da nossa débil democracia. É óbvio que, a postura e comportamento dos trabalhadores Sãotomenses em geral, e os da função pública em particular, são influenciados pelo parco salário que recebem e condições miseráveis de exercício das suas funções nos respectivos trabalhos, o que, contribui para a maximização da importância e valor da recente greve, sobretudo ao nível de engajamento e adesão conseguidos. Desprezar os resultados deste acontecimento ou achincalhar a iniciativa destes trabalhadores, parece-me uma cegueira irresponsável e um despropósito intelectual. Estes trabalhadores, resolveram também saltar para a festa, mas, não creio que tenham disponibilidade nem motivação para dançar e brincar.



publicado por adelino às 16:59
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