Terça-feira, 12 de Julho de 2005

Camarão que dorme, Acorda no prato...




Era uma vez um pequeno, gordo e bonito camarão. Era uma coisa rara num crustáceo comestível, sobretudo naquelas paragens. Vítima da inveja e troça de alguns peixes das redondezas, o camarão em causa, começou a deslocar-se de esconderijo em esconderijo sob aquela massa medonha de água. Gastava com tal mais energia nestes seus movimentos solitários, embora se sentisse bem nesta pequena aventura. Um cherne invejoso, quase quadrado e ambicioso como todos os chernes, aproximou-se do referido camarão, propondo-lhe os seus serviços de protecção. Uma garoupa mal amada, que, se proclamara dono do referido camarão, zangou-se com o cherne perante tamanho atrevimento. Cocumba, que vivia na outra margem e muito distante desta ciumeira familiar, juntou-se ao cherne, e, também ela começou a fazer guerra à garoupa. Corvina e tainha, envoltas em mistérios similares pelo facto de terem a mesma ascendência, ou seja, serem inicialmente provenientes da água doce, reconheceram com facilidade os tiques inconfundíveis da cocumba, e, também elas, desataram a bater na garoupa. Todos os outros peixes do mundo, assistiam àquele espectáculo inesperado de zangas, manifestação de amor e desamor, de forma apaixonada e interessada. Alguns faziam questão de tomar partido de forma mais agressiva e engrossar a fila dos contendores. O camarão foi crescendo, crente na inviolabilidade desta cadeia de solidariedade familiar oceânica, e, já seguro de si, dispensa quaisquer favores de protecção que, pudessem contribuir para minar a sua credibilidade de maior e vacinado. Nada de forma livre nas profundezas do oceano, faz novas amizades, e, não abdica do seu novo propósito: crescer livre de quaisquer protecções e solidificar o seu conhecimento relativamente à outros camarões de quem não recebia novidades. Entregue aos caprichos, vaidade e aventura, típicas de uma fase de desenvolvimento da vida, promotora de auto-conhecimento, o referido camarão mergulha em destinos oceânicos cada vez mais longínquos, contraditórios e inesperados. O Atlântico parece pequeno para dar forma aos seus propósitos identitários. É nesta aventura atípica que, contorna o Pacífico e chega ao Oriente. Aí, conhece o salmão e outras espécies típicas desta paragem, e, fica positivamente impressionado com aquilo que ouve sobre os mistérios da vocação divina do apóstolo S.Tomé. Um salmão chega mesmo a sussurrar-lhe que, S.Tomé foi um homem, por quem as pessoas nestas paragens se apaixonaram; e que, por sua vez, ele também apaixonou-se por elas. Feita esta confidência, o camarão, vaidoso como era, proclamou-se no novo S.Tomé e transformou-se num apóstolo oceânico. De regresso ao Atlântico, vai perdendo energias, e agora, mais magro e já na companhia de outros camarões, é perseguido por cardumes de roncadores. S.Tomé, o apóstolo oceânico, dirige este desfile de camarões, que vai resistindo à fúria da água. Quando atacados por roncadores furiosos a coluna desfazia-se momentaneamente, e os camarões sob a coordenação de S.Tomé, formavam um circulo, com as suas pinças afiadas para fora. Assim se foram defendendo dos inconstantes e inesperados ataques dos roncadores. Já perto do golfo da Guiné, e, ciente do infrutífero e imperscrutável passeio oceânico, S.Tomé e seus pares, deparam com um ruído imperceptível vindo de longe. Inicialmente torna-se difícil decifrar a mensagem. Aproximando-se do local donde vinha o ruído, e, não descurando a atenção e comodidade desejáveis, os camarões ainda em círculo, ouvem o seguinte:
«…O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a Terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a Terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a Terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? …»
À deriva e já sem forças, o novo apóstolo oceânico dispara timidamente perante seus pares: - Eu já ouvi isto de algum lugar! Conheço isto! Deixem-me ouvir melhor … Deixem-me ouvir melhor… S.Tomé tinha razão. Tratava-se de uma tentativa de recriação do “Sermão de S.António aos Peixes”, tendo como pregador e centro das atenções, o polvo. O grande, o incontornável e desejável polvo. Era a trigésima tentativa do polvo e seus amigos, para a recriação de tal acto, num mimetismo sanguinário sem precedentes. O camarão, já muito magro, convertido em apóstolo oceânico, voltou a dormir como das outras vezes, perante a tentativa de recriação do sermão em causa. Foi sempre assim, provavelmente será sempre assim. A corvina e outros peixes divertem-se com o sono profundo do camarão apóstolo, e, anunciando banquete, promovem uma cantoria que agita as águas do golfo: camarão que dorme, acorda no prato… camarão que dorme, acorda no prato!






publicado por adelino às 00:56
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1 comentário:
De Anónimo a 12 de Julho de 2005 às 01:14
Oi, olha curti bue o teu blog ta mt fx a serio e já agora vou te dar a noticia de k abriu uma nova template shop á uns mesitos e lá podes encontrar varios templates únicos feitos por nós, exclusivos para toda a comunidade blogueira tb podes encomendar um template que tenha mais a ver ctg ou mm um blinkie, um gif, montes de coisas para decorar o teu blog ok? Ixto td podes ver em http://templatesbygt.blogs.sapo.pt .Fika bem... PS: se puderes e se kizeres ajudar a ekipe da template podias fazer alguma publicidade a nossa template shop para que tds tenham o conhecimento que há sitios mt bons ond podem encontrar uma coisinha ou outra para ajudar a mimar o seu blog ok? Contamos cm a tua ajuda obrigada.francisco
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