Sexta-feira, 3 de Março de 2006

Carta Aberta aos Santos

Meus caros Santos, Tomé e António!

Permitam-me tratar-vos de forma informal. Peço-vos antecipadamente desculpas, pelo facto de ousar escrever-vos, negligenciando as eventuais consequências esotéricas decorrentes deste acto, para mim próprio e para o país. Tendo esgotado todos os recursos térreos, local e internacional, no sentido de suavizar os efeitos da desgraça que se aproxima de nós apressadamente, venho humildemente, recorrer da Vossa sapiência, no sentido de proteger-nos da nossa Santa Mediocridade. Quem melhor do que os nossos Santos, para combater a nossa valente Santa Mediocridade? A senhora tem sido muito má para com a generalidade dos pobres e remediados, e, não há alertas, inquéritos, tribunais, comissões parlamentares, eleições, Procuradoria-Geral da República, Juízes, prisões, ONU, NATO, ou qualquer outra entidade, que, nos proteja. Sinto que estarão angustiados, tristes e cabisbaixos com a cascata acelerada e rocambolesca de acontecimentos, nas terras a quem emprestaram nome e título; mas, isto por si só, serviu para embalar as minhas intenções iniciais.

Querido Tomé!

De facto, todos os dias, uma parte do mundo deleita-se com a chacota que grassa nas ilhas; enquanto a outra, incrédula e estupefacta, parece não acreditar no que vê, contrariando os princípios e teses que te santificaram como um incrédulo relativamente à ressurreição de Cristo. Sei que sofres com a nossa incapacidade inexplicável de resistir à atracção para o precipício, no que se refere aos casos insólitos, extravagantes e repetitivos que perduram na nossa democracia. Desculpar-me-ás o atrevimento, relativamente ao facto, de, considerar o regime em causa como democrático; mas, não me ocorre palavra adequada, neste momento em que te escrevo. Tenho poucas novidades para te dar, pois creio, estares na posse de informação suficiente, tendo em conta o teu estado de angústia e tristeza. Sabes no entanto, quem esteve no poder durante os últimos trinta anos na nossa Terra? É o mesmo partido que, não tendo feito qualquer introspecção séria e rigorosa sobre as causas do seu falhanço governativo neste período, e, consequentemente, tendo dispensado o mínimo esclarecimento ao povo sobre o assunto em causa, prepara-se de novo, para pedir mais uma oportunidade ao referido povo para governar. Meu caro Tomé, achas que alguém pode acreditar nesta metamorfose? Vamos “ver para crer”, dirias tu! Não sei no entanto, se, ainda nos resta tempo, para salvar as nossas crianças, os nossos idosos, as nossas mulheres e jovens, neste circo cruel, de experiências e amadorismo. E sabes qual foi a resposta dos principais partidos da oposição? Resolveram coligar-se, para lutarem por meia dúzia de lugares de deputados na Assembleia Nacional e defenderem melhor os interesses das suas elites hierárquicas. Ninguém sabe o que pensam sobre os graves problemas do país e forma de ultrapassá-los. Para eles, o povo é burro e miserável, condição perfeita para que, os dólares possam realizar o milagre de multiplicação dos votos e, consequentemente, garantir o sucesso eleitoral. Dirias tu, provavelmente: é o avanço do gangsterismo político na nossa terra, na sua forma primária e certeira. Para além dos problemas estruturais existentes, que, requerem reformas das instituições, dos hábitos e comportamentos dos agentes políticos, passámos rapidamente – contrariando o nosso léve-léve – da percepção generalizada de um povo pacífico, sereno, calmo e responsável, para o caos total. Esta mistura de sublevações ou insurreições militar, golpes de Estado, corrupção, desorganização e falsificações de toda a espécie, é actualmente, a nossa imagem de marca além fronteiras. Falsificam-se documentos de identificação, certidões de habilitações, passaportes, cartas de condução, dólares, etc. Somos momentaneamente um país de falsificadores. Até a própria democracia é falsificada. É neste contexto socioeconómico, político e cultural, que se pretende vender o nosso turismo e criar condições para fazer crescer o investimento estrangeiro no país. A resposta para todos estes problemas, dizem alguns, estará na disseminação pelas repartições públicas do país, de “livros de reclamações” que, se converteram momentaneamente, em autênticas entidades mágicas. Outros acham que, coligações pré-eleitorais sem qualquer conteúdo programático sério e rigoroso, é a saída para o problema. O que achas de tudo isto meu caro S.Tomé?

Caríssimo e Sapiente António!

Que falta fazem os teus sermões, hoje em dia, nestas paragens! Para além dos peixes continuarem a comer tudo, temos de contar com a sagacidade, engenho e intimidação de outras espécies que, entretanto apareceram. Os “Búfalos” hibernaram; e, os “Ninjas” decidiram também saltar para a festa. Onde iremos parar meu caro Santo Antonino? Sabias que nos últimos cinco anos tivemos quatro governos, não obstante a quantidade de problemas que temos por resolver? É esta incapacidade de resistir à atracção para o precipício, que, vos falava anteriormente, a responsável pelo nosso fraco desempenho como povo. Meu caro António, sabias que as eleições presidenciais se aproximam? E sabes de quem se fala nos corredores do poder, como sendo um possível pré-candidato para as eleições em causa? Fala-se do mesmo actor político, que, derrubou três governos no seu primeiro mandato presidencial, transformou o país num cemitério de governos e, não manifestou até hoje, qualquer remorso, arrependimento ou tendência para arrepiar caminho. Isto quer dizer que, num eventual segundo mandato presidencial deste actor político, onde normalmente há tendência para amplificação desta conduta por parte dos titulares do referido cargo, teremos sem exagerar, o dobro de governos desta presente legislatura. Não sei o que será de nós meu caro Santo Antonino! Peço-te encarecidamente que intercedas por nós, junto de Deus e da Nossa Senhora, no sentido de nos livrar de toda a tirania suína e abjecta. Uma cultura de liberdade, responsabilidade e solidariedade, não se ensina somente; transmite-se pelo exemplo de quem a pratica. Ora, a actual organização e dinâmica dos nossos sistemas político e institucional é desincentivadora de tais predicados. Não achas meu querido Santo? Meus caros Santos, despeço-me com lágrimas, esperando notícias vossas. Queiram aceitar os meus cumprimentos e consideração.

publicado por adelino às 10:22
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